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Escassez de água pode atingir 6,5 bilhões de pessoas até 2050 e transformar recurso básico em uma das maiores crises do planeta

Novo estudo publicado na Nature Geoscience usa inteligência artificial e décadas de dados para mostrar que distribuição desigual, consumo, urbanização e capacidade de adaptação podem transformar a segurança hídrica em uma das maiores crises globais das próximas décadas.

Resumo

Até 6,5 bilhões de pessoas, equivalentes a 65,5% da população mundial projetada no cenário analisado, podem enfrentar escassez severa de água em 2050. A projeção aparece em um novo estudo que conclui que o futuro hídrico do planeta não dependerá apenas da quantidade física de água disponível, mas também da desigualdade, do crescimento populacional, da urbanização, da eficiência no uso do recurso e da capacidade de diferentes sociedades de se adaptar à pressão crescente sobre rios, aquíferos e outros sistemas de abastecimento.


Segundo a Nature Geoscience estudo publicado na Nature Geoscience, a projeção de 6,5 bilhões de pessoas corresponde ao chamado SSP3, cenário de desenvolvimento marcado por fragmentação internacional, elevados desafios sociais, crescimento populacional e progresso tecnológico mais lento. O trabalho de Jichuan Sheng, Qian Cheng e Hongqiang Yang foi publicado em 20 de janeiro de 2026 e utilizou aprendizado de máquina para reconstruir décadas de padrões de consumo e projetar diferentes futuros até o fim do século.

6,5 bilhões de pessoas podem enfrentar escassez severa já em 2050

O número central do estudo dimensiona a escala do problema. No cenário SSP3,6,5 bilhões de habitantes estariam submetidos a condições classificadas pelos pesquisadores como escassez severa em meados do século. Isso corresponde a 65,5% da população global prevista dentro desse cenário.

A projeção não significa que 6,5 bilhões de pessoas necessariamente ficarão completamente sem água nas torneiras. O estudo emprega um índice de pressão entre a retirada humana e a quantidade renovável de água disponível depois de preservadas necessidades ambientais. Quando essa relação ultrapassa determinados limites, a região entra em níveis crescentes de estresse e escassez.

Ainda assim, atingir o patamar classificado como severo significa que a demanda humana exerce pressão muito elevada sobre o recurso renovável disponível. Em regiões densamente povoadas, essa condição pode aumentar a competição entre abastecimento urbano, agricultura, indústria e demais atividades dependentes de água.

Cientistas usaram inteligência artificial para projetar o consumo mundial

Em vez de simplesmente extrapolar tendências lineares de consumo, os pesquisadores construíram o Machine Learning-based Global Water-use Forecasting, ML-GWF, um modelo global de previsão de uso da água baseado em aprendizado de máquina.

O sistema foi treinado com décadas de dados históricos relacionados ao uso de água e a fatores socioeconômicos. Entre as variáveis consideradas aparecem população, produto interno bruto, urbanização, área irrigada, eficiência da irrigação, uso industrial e eficiência municipal, além de padrões históricos de consumo.

Os autores então aplicaram o modelo aos diferentes Shared Socioeconomic Pathways, os SSPs, cenários amplamente usados na pesquisa climática e socioeconômica para representar futuros alternativos de desenvolvimento mundial.

Cenário combina fragmentação, crescimento e tecnologia mais lenta

O resultado de 6,5 bilhões não aparece em todos os caminhos possíveis. Ele está associado ao SSP3, cenário no qual o mundo se torna mais fragmentado, a cooperação internacional diminui, o crescimento populacional permanece elevado em determinadas regiões e o desenvolvimento tecnológico avança de maneira mais lenta.

Nesse caminho, o consumo global de água também apresenta a maior trajetória de crescimento entre os cenários estudados. Até 2100, a utilização mundial seria aproximadamente 32% superior ao nível de referência de 2019.

Para comparação, no cenário SSP1, estruturado em torno de sustentabilidade e políticas coordenadas, o crescimento projetado do uso global seria de apenas 6,4% até 2100. No SSP2, mais próximo da continuidade de tendências intermediárias, a alta alcançaria 25,7%.

A diferença mostra por que decisões econômicas e sociais tomadas nas próximas décadas podem alterar profundamente a quantidade de água retirada pelo conjunto da população.

Escassez é calculada pela pressão sobre a água realmente disponível

Para transformar demanda e disponibilidade em um indicador comparável, os pesquisadores utilizaram o Water Scarcity Index, WSI.

O cálculo relaciona a retirada total de água à quantidade renovável de água azul, formada por recursos superficiais e subterrâneos, depois de descontado o fluxo ambiental necessário para sustentar os ecossistemas de água doce.

Ásia concentra algumas das áreas mais pressionadas do planeta

A crise projetada também não é distribuída uniformemente. Os pesquisadores identificaram fortes diferenças geográficas, com Sul e Leste da Ásia aparecendo entre as regiões que concentram os maiores aumentos na população submetida à escassez.

Os mapas do estudo mostram expansão especialmente grave das condições de escassez no Norte da África, Oriente Médio e Sul da Ásia. Nos cenários SSP2 e SSP3, grandes áreas dessas regiões avançam inclusive para a faixa de escassez extrema, definida no trabalho por valores de WSI superiores a 5.

A África Subsaariana também aparece como um dos grandes focos futuros por combinar crescimento populacional, expansão da demanda e limitações econômicas e institucionais para adaptação.

A conclusão dos pesquisadores é que analisar apenas médias globais pode esconder o problema central: bilhões de pessoas podem estar concentradas justamente nas regiões onde o equilíbrio entre demanda e disponibilidade é mais delicado.

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