Petróleo na Foz do Amazonas reacende debate sobre uso de royalties
Os royalties de recursos naturais funcionam como uma compensação financeira paga por empresas que exploram bens finitos, como petróleo, gás e minérios

A confirmação da presença de hidrocarbonetos no poço Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas, reacendeu a discussão sobre como o Brasil deve administrar eventuais receitas provenientes de uma nova fronteira de exploração de petróleo. O poço está localizado no bloco FZA-M-59, a aproximadamente175 quilômetros da costa do Amapá, em uma região com lâmina d’água de 2.886 metros.
A revelação veio à tona há três semanas, quando a Petrobras identificou indícios de hidrocarbonetos durante a perfuração do poço, que deve ultrapassar 7 mil metros de profundidade. O anúncio foi recebido com manifestações de lideranças políticas e da cúpula da estatal.
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou que o resultado reforça as expectativas da companhia em relação à Margem Equatorial e à recomposição das reservas nacionais de petróleo.
Os royalties de recursos naturais funcionam como uma compensação financeira paga por empresas que exploram bens finitos, como petróleo, gás e minérios, mas essa relação com o desenvolvimento econômico é objeto de debates e discussões. É que os recursos podem financiar obras públicas, saneamento, escolas e hospitais nas regiões afetadas.
Há uma expectativa de alívio orçamentário, ampliando a capacidade de investimento dos governos locais que suportamos riscos ambientais e o impacto na infraestrutura. Há, ainda, a possibilidade de os recursos auxiliarem no equilíbrio — ao repassar ganhos da exploração primária para estados e municípios.

Ritmo
A continuidade das atividades exploratórias avançou nesta semana. Na quinta-feira (3), a equipe técnica de licenciamento ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) concluiu as avaliações e autorizou, por meio da retificação da Licença de Operação (LO), a perfuração de outros três poços previstos no Estudo de Impacto Ambiental e no Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima).
A autorização permite a perfuração dos poços Manga, Crotaluse PAD Morpho. Os dois primeiros correspondem a prospectos independentes, enquanto o PAD Morpho será utilizado para delimitar a extensão da descoberta realizada no poço pioneiro.
Apesar das expectativas geradas pela presença de hidrocarbonetos, a Petrobras ainda não confirmou o volume da acumulação nem sua viabilidade comercial. A identificação de petróleo durante a perfuração é uma etapa da campanha exploratória, mas não permite, por si só, determinar se a área poderá ser transformada em uma operação de produção.
Testes
Para avançar nessa avaliação, a companhia prevê testes de formação de curta duração, com fluxo limitado a 72 horas, além da perfuração dos três novos poços. Os procedimentos devem fornecer informações sobre as características do reservatório e ajudara determinar o tamanho e o potencial da acumulação encontrada no Morpho.
A definição sobre uma eventual produção também depende da integração dos dados obtidos durante a perfuração com análises geológicas e geofísicas. Por isso, ainda não há uma estimativa definida sobre possíveis receitas geradas pela área.
Mesmo antes da confirmação da viabilidade comercial, a descoberta colocou em discussão o papel do Estado na exploração e a destinação de eventuais royalties e outras receitas decorrentes da atividade.
Análises
Para Rafael Chaves, professor de Economia e Finanças da Fundação Getúlio Vargas/Escola Brasileira de Economia e Finanças (FGV/EPGE)e ex-diretor de Sustentabilidade e Relações Institucionais da Petrobras, o modelo brasileiro conta com mecanismos suficientes para assegurar a participação do poder público nas receitas provenientes da exploração de petróleo.
Segundo o professor, a experiência do pré-sal mostra que o aumento das receitas do petróleo não garante, por si só, desenvolvimento econômico de longo prazo. Ele cita o Rio de Janeiro como exemplo da dificuldade de transformar recursos provenientes da exploração em investimentos estruturais.



