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O calor vai encarecer a conta de luz dos brasileiros?

Recorde do consumo médio e El Niño excepcional expõem custos da climatização e necessidade de reforçar as redes

A bandeira verde de outubro retirou a cobrança adicional da conta de luz. Mas o alívio não impede outra pressão: quando o calor aumenta o uso do ar-condicionado, cresce o consumo e, com ele, a despesa das famílias.

Segundo a Resenha Mensal da EPE, em agosto de 2026 o consumo residencial cresceu 6,9% em relação ao mesmo mês de 2025. O comércio avançou 9,4% e a indústria, apenas 0,2%.

Já no acumulado dos 12 meses encerrados em agosto, as residências consumiram 184,7 bilhões de quilowatts-hora, alta de 3,3% sobre os 12 meses anteriores.

O avanço vem de longe: o consumo residencial passou de 23,3 bilhões de quilowatts-hora em 1980 para quase 180 bilhões em 2025.

Nesse último ano, mais ameno que 2024 e marcado por bandeiras vermelhas em parte do período, o consumo cresceu 1,7%, enquanto o número de unidades consumidoras aumentou 2,2% entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025.

O consumo médio por unidade recuou, evidenciando que a expansão do mercado não significa necessariamente maior utilização de eletricidade por residência.

O risco para o sistema está nos horários de uso. Aparelhos de ar-condicionado ligados simultaneamente podem pressionar transformadores e circuitos locais, inclusive no início da noite, quando a geração solar diminui.

A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) já acompanha a duração e a frequência das interrupções; informações públicas comparáveis sobre carregamento dos equipamentos ajudariam a identificar onde reforçar a rede.

O verão traz um teste adicional. Em boletim divulgado em 30 de setembro, o Inmet e outros seis órgãos federais estimaram em 95% a chance de El Niño muito forte entre outubro e dezembro.

A Organização Meteorológica Mundial projeta anomalia de 3,7 °C na temperatura da superfície do Pacífico equatorial, na região Niño 3.4, ante o recorde anterior de 2,6 °C em 2015–2016. É uma previsão, não uma medição já observada, e seus efeitos sobre calor e chuvas variam conforme a região.

No Brasil, as temperaturas muito elevadas previstas para o Centro-Norte tendem a ampliar o consumo de eletricidade para climatização, pressionando a demanda e exigindo maior capacidade das redes de distribuição.

A Tarifa Social deixa claro quem tem menos margem para reagir. A Lei 15.235/2025 garante desconto integral sobre os primeiros 80 kWh mensais às famílias elegíveis, mas não sobre o excedente.

Se o consumo passar de 80 para 150 kWh, os 70 kWh adicionais serão cobrados. Isso pode transformar o conforto térmico em despesa relevante, mesmo sem reajuste da tarifa.

O Ministério de Minas e Energia e Inmetro devem avaliar se as regras de eficiência dos aparelhos consideram os horários críticos; ventilação e sombreamento precisam integrar políticas habitacionais.

A bandeira verde proporciona alívio imediato, mas não elimina o impacto do maior consumo sobre o orçamento das famílias. Com a intensificação do calor, cresce também a necessidade de investimentos nas redes de distribuição.

O desafio será garantir que esses recursos sejam aplicados com eficiência, sem impor custos desnecessários aos consumidores.

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