Imprensa europeia destaca processo de decadência da Seleção
Da euforia norueguesa ao diagnóstico alemão de um "mito do passado". Veículos europeus apontam que derrota para a Noruega é sinal do declínio do futebol brasileiro

A eliminação do Brasil para a Noruega por 2 a 1 neste domingo (05/07), nas oitavas de final da Copa do Mundo, foi recebida pela imprensa europeia não apenas como uma surpresa esportiva, mas como indício de uma transformação no equilíbrio de forças do futebol mundial.
O resultado, conforme as análises, pode ter marcado a consolidação da Noruega como nova potência competitiva e o enfraquecimento de uma Seleção Brasileira que não conquista uma Copa desde 2002.
Espanha: Haaland destrói o projeto de Ancelotti
O jornal espanhol El País, que estampou a manchete: “O martelo viking de Haaland destrói o Brasil de Ancelotti”. Mais do que exaltar o atacante norueguês, o artigo sustenta que a seleção brasileira foi derrotada por uma equipe que executou melhor justamente as virtudes que Ancelotti pretendia implementar na Canarinho: pragmatismo, eficiência e capacidade de decidir nos momentos-chave.
A análise argumenta que o Brasil abriu mão de sua tradicional vocação ofensiva para apostar em um modelo mais cauteloso e reativo. Segundo o diário, a estratégia não produziu uma equipe sólida o suficiente para competir com a eficiência norueguesa. O pênalti desperdiçado por Bruno Guimarães, ainda com o jogo empatado, é tratado como o momento simbólico em que o plano brasileiro começou a ruir.

Noruega: feito histórico
Nos jornais noruegueses, a cobertura misturou euforia e surpresa. O tabloide VG, um dos principais jornais noruegueses resumiu a noite com uma manchete direta: “Brasil esmagado”. O veículo descreveu a vitória como um acontecimento capaz de redefinir o lugar da Noruega no futebol internacional.
O Adresseavisen foi ainda além e classificou a classificação para as quartas de final como “o maior acontecimento da história do esporte norueguês”. A avaliação reflete a dimensão histórica do resultado para um país que retornou recentemente ao cenário mundial após décadas de ausência em grandes torneios.
Já o Dagbladet preferiu destacar o goleiro Orjan Nyland. Para o jornal, a defesa do pênalti de Bruno Guimarães foi tão decisiva quanto os gols de Haaland. A narrativa predominante foi a de uma vitória coletiva, construída pela organização defensiva e pela disciplina tática escandinava.
França: o “pesadelo europeu” continua
O francês L’Équipe tratou a eliminação como mais um capítulo do que chamou de persistente dificuldade brasileira contra seleções europeias em Copas do Mundo.
A ideia recorrente foi que o Brasil voltou a falhar justamente diante do tipo de adversário que o elimina sistematicamente há mais de duas décadas. A vitória norueguesa foi apresentada não como acidente, mas como parte de uma tendência histórica que se repete desde o pentacampeonato de 2002.
Itália: questionamentos sobre o trabalho de Ancelotti
Na Itália, a atenção se dividiu entre Haaland e Carlo Ancelotti. A Gazzetta dello Sport destacou a dimensão do feito do atacante norueguês e sugeriu que sua influência na partida foi maior do que a de toda a equipe brasileira reunida, afirmando “Haaland é maior que o Brasil”.
O fato de Ancelotti ser um dos técnicos mais vitoriosos da história do futebol europeu acrescentou peso às análises. Embora a crítica não tenha sido dirigida exclusivamente ao treinador, diversos comentários apontaram que a chegada do italiano ainda não foi capaz de resolver os problemas de identidade da Seleção.
Alemanha: “Apenas um mito do passado”
Comentário publicado pela revista esportiva alemã Kicker sob o título O Brasil é um mito – mas apenas um mito do passado, afirma que a derrota para a Noruega não representa um acidente de percurso, mas a confirmação de um processo de decadência do futebol brasileiro que já vinha sendo anunciado há anos.
O texto ressalta que, em vez do tão sonhado sexto título mundial que encerraria um jejum que já dura desde 2002, a Seleção saiu de cena nas oitavas de final, algo que não acontecia desde a Copa de 1990. O resultado constitui um novo ponto baixo na trajetória recente da Amarelinha.
A análise rejeita a ideia de que a eliminação tenha sido surpreendente. A derrota para uma Noruega forte – e a dificuldade enfrentada anteriormente contra o Japão – seriam evidências de uma realidade que muitos torcedores brasileiros ainda resistem a admitir: o Brasil já não se diferencia das chamadas potências médias do futebol mundial. Para a publicação alemã, a aura construída pelas gerações de Pelé, Romário, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho continua viva na memória coletiva, mas deixou de encontrar correspondência dentro de campo.
O comentário também revisita a campanha das eliminatórias sul-americanas, descrita como a mais problemática da história brasileira. A Kicker recorda derrotas inéditas para Colômbia e Argentina, empates contra a Venezuela e a sucessão de treinadores que antecedeu a chegada de Carlo Ancelotti. Na avaliação do periódico, o quinto lugar obtido nas eliminatórias foi um sinal claro de enfraquecimento, ainda que o formato ampliado da Copa tenha suavizado as consequências esportivas.



