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El Niño expõe risco do gás obrigatório e força Brasil a planejar energia para décadas de clima instável

A redução da dependência hídrica exige redes, armazenamento e renováveis, não apenas novas termelétricas

Quando o clima altera o volume de água nos reservatórios, o impacto não fica restrito às regiões onde estão as hidrelétricas. A mudança pode alcançar o preço da eletricidade, o acionamento de usinas mais caras e a capacidade de a rede atender picos de consumo em todo o país.

É nesse ponto que o possível fortalecimento do El Niño em 2026 recoloca uma questão prática para o Brasil: como garantir energia em períodos de maior instabilidade climática sem transformar uma resposta temporária em dependência fóssil por décadas?

O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial e pode alterar padrões de chuva e temperatura. Segundo a National Oceanic and Atmospheric Administration, por meio do Climate Prediction Center, havia em 2026 condições compatíveis com o desenvolvimento de um episódio de El Niño, com possibilidade de persistência e intensificação no verão seguinte.

A previsão, por si só, não determina o comportamento dos reservatórios brasileiros nem autoriza conclusões automáticas sobre uma crise de abastecimento. Ela, porém, amplia a margem de incerteza de um sistema elétrico que ainda usa a hidrologia como uma de suas principais bases de planejamento.

O risco não está apenas na falta de chuva

Em uma matriz com forte participação hidrelétrica, períodos de afluência menor reduzem a água disponível para geração. Para preservar os reservatórios, o operador pode recorrer a fontes complementares. O problema é que a solução escolhida para cobrir essa diferença interfere no custo, nas emissões e na própria capacidade futura de incorporar novas fontes renováveis.

As termelétricas têm função relevante em situações específicas, como escassez hídrica ou demanda elevada. Isso não significa, contudo, que toda expansão a gás represente aumento automático de segurança. Uma usina desenhada para operar de maneira rígida, por longos períodos, pode ocupar espaço de geração justamente quando há muita produção solar ou eólica.

Esse descompasso é conhecido no setor como curtailment. Ocorre quando a eletricidade produzida por uma fonte renovável supera o consumo momentâneo ou a capacidade de transporte da rede. Nesse cenário, o sistema pode desperdiçar energia limpa porque uma parcela da geração convencional permanece contratada ou ligada.

O projeto de lei que ampliou o debate

O Projeto de Lei nº 5.017/2019 tornou-se um exemplo dessa disputa entre resposta imediata e planejamento estrutural. A proposta surgiu com foco em descontos tarifários para produtores rurais que utilizam poços artesianos na irrigação. Durante a tramitação, foram incorporados dispositivos relacionados à expansão do setor elétrico, entre eles a contratação obrigatória de 2,5 gigawatts de usinas termelétricas movidas a gás fóssil.

O texto também prevê a operação dessas usinas em regime quase integral. Como muitas das áreas projetadas para receber os empreendimentos não contam com infraestrutura suficiente para transportar gás natural, a discussão passou a envolver gasodutos e estruturas associadas.

O Projeto de Lei nº 5.017/2019 no Senado ajuda a acompanhar a origem e a tramitação dessa mudança. O ponto central, segundo a análise do Instituto de Energia e Meio Ambiente, é que uma decisão tomada para responder à variabilidade climática pode criar obrigações financeiras e físicas que ultrapassam o período de emergência.

A conta que pode permanecer depois da emergência

Uma térmica a gás não é apenas uma máquina instalada em um terreno. Ela depende de contratos de combustível, conexão elétrica, logística e, em determinadas regiões, de uma rede de gasodutos. Cada etapa pode gerar investimentos de longa duração. Se a demanda real ficar abaixo do esperado, consumidores ainda podem arcar com custos de contratação e manutenção da capacidade.

Usinas inflexíveis, que precisam operar quase continuamente, também reduzem a margem para administrar a variabilidade das renováveis. Em vez de complementar a produção solar e eólica nos horários de menor geração, elas podem produzir quando a energia renovável já está disponível. A consequência é mais corte de geração limpa e menor eficiência econômica na expansão da matriz.

Há ainda a dimensão ambiental. A queima de gás fóssil emite gases de efeito estufa e poluentes atmosféricos. A exposição a esses poluentes pode afetar comunidades próximas às instalações, o que torna insuficiente uma avaliação baseada apenas na garantia de potência ou na capacidade instalada.

O que pode dar flexibilidade ao sistema

A segurança energética pode ser construída por um conjunto mais amplo de ferramentas. Sistemas de armazenamento permitem guardar parte da eletricidade produzida em momentos de excesso e devolvê-la à rede quando a demanda aumenta. Redes de transmissão mais robustas reduzem os gargalos que impedem a transferência de energia entre regiões.

A gestão dos reservatórios também permanece decisiva. Em vez de tratar a água armazenada apenas como estoque para períodos secos, o planejamento precisa considerar cenários climáticos, demanda, intercâmbio entre subsistemas e a entrada acelerada de fontes variáveis. Sinais econômicos adequados podem estimular investimentos em tecnologias capazes de responder rapidamente às oscilações de oferta e consumo.

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