Afuá: “Veneza Marajoara” Cidade sem carros e uma rotina com bicitáxis, policiais ciclistas e até “bicilância” para atender emergências
Brasil esconde uma cidade onde carros e motos são proibidos desde 2002

Em Afuá, no arquipélago do Marajó, no Pará, a paisagem urbana desafia a imagem tradicional de uma cidade brasileira. Carros e motocicletas não circulam pelas passarelas, boa parte das vias fica elevada sobre palafitas e a bicicleta ocupa o espaço que, em outros municípios, pertence aos automóveis.
Localizada em uma região de várzea sujeita às cheias, Afuá desenvolveu casas, comércios e caminhos acima do nível alcançado pela água.
Em vez de avenidas asfaltadas, moradores circulam por uma rede de passarelas e pontes que conecta diferentes pontos da área urbana.
A proibição de veículos motorizados remonta a 2002, segundo registros sobre o código de posturas municipal. Duas décadas depois, a Lei Municipal nº 495, de novembro de 2022, voltou a estabelecer oficialmente restrições ao tráfego de veículos automotores no perímetro urbano e em passarelas da zona rural.
O resultado é uma cidade onde bicicletas ganharam funções que vão muito além do deslocamento individual.

Afuá adaptou a mobilidade urbana às cheias
A geografia ajuda a explicar por que o transporte de Afuá tomou um caminho tão diferente. O município está cercado por rios, canais, igarapés e áreas sazonalmente inundáveis.
A própria Prefeitura de Afuá afirma que, devido à localização em região de várzea, a cidade foi construída de forma elevada, inclusive suas ruas.

As passarelas começaram com forte presença de madeira, embora determinados trechos tenham recebido posteriormente estruturas de concreto. Nelas circulam crianças indo à escola, trabalhadores, comerciantes e famílias inteiras sobre bicicletas.
Segundo o IBGE, Afuá tinha 37.765 habitantes no Censo de 2022, enquanto a estimativa populacional para 2025 chegou a 40.473 pessoas.

Proibição de carros e motos começou em 2002
A ausência de automóveis não ocorre apenas porque as ruas são estreitas. O município adotou uma restrição específica ao transporte motorizado.
Registros publicados pela National Geographic apontam que, em 2002, o código de posturas de Afuá proibiu veículos movidos a motor nas vias da cidade, inclusive modelos elétricos.
A decisão também ajudou a preservar passarelas que não haviam sido projetadas para suportar continuamente o peso e a circulação de automóveis convencionais.
Em 2022, a prefeitura publicou a Lei nº 495, que trata expressamente da proibição do tráfego de veículos automotores no âmbito urbano e nas passarelas das vias rurais.
Assim, enquanto muitas cidades tentam reduzir a dependência do automóvel, Afuá mantém há décadas uma dinâmica urbana baseada principalmente em deslocamentos não motorizados.

Bicicletas respondem pela maior parte dos deslocamentos
Em Afuá, pedalar não é apenas atividade esportiva ou alternativa de lazer.
Um levantamento já citado em estudos sobre a mobilidade local apontou que cerca de 75% das viagens eram realizadas por bicicletas, triciclos e quadriciclos movidos por força humana. Outros deslocamentos ocorrem a pé.
O movimento das bicicletas também acompanha a dinâmica dos barcos que chegam e partem para outras cidades, especialmente Macapá e Belém.
A prefeitura informa que Afuá está a aproximadamente 84km de Macapá, capital mais próxima, apesar de estar localizada no Pará. Belém fica a cerca de 320km.
O acesso ao município depende principalmente das vias fluviais, enquanto a circulação interna muda quase completamente para os pedais.

Afuá usa até “bicilância” em atendimentos de emergência
A adaptação das bicicletas chegou também aos serviços de emergência. A chamada bicilância é uma estrutura preparada para transportar pacientes pelas passarelas, geralmente com espaço para uma maca e apoio de socorristas.
Registros do município e reportagens feitas em Afuá mostram o equipamento sendo utilizado em atendimentos nos quais uma ambulância convencional simplesmente não conseguiria circular pela rede urbana.
A solução nasceu da mesma lógica aplicada ao bicitáxi: utilizar veículos leves, estreitos e movidos por força humana para cumprir funções normalmente desempenhadas por automóveis.
Dessa maneira, até situações de resgate precisaram ser pensadas a partir das características físicas da cidade.




