O paraíso brasileiro onde lagoas nascem entre as dunas em abril e somem em novembro
Os Lençóis Maranhenses reúne dunas brancas e lagoas de água doce

Areia sozinha não segura água, mas um lençol freático alto muda essa regra. É o que acontece nos Lençóis Maranhenses, no litoral do Maranhão, onde a chuva do primeiro semestre enche os vales entre as dunas e cria milhares de lagoas de água doce que somem quando a estiagem avança, um ciclo que rendeu ao parque o título de patrimônio natural da humanidade.
Como se formam as lagoas de água doce entre as dunas?
A resposta está no subsolo. Sob o campo de areia existe uma camada impermeável que impede a água de escoar em profundidade, então a chuva se acumula e aflora nos vales entre os cordões de dunas, formando lagoas permanentes e temporárias abastecidas pela variação do lençol freático.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), cerca de 57% da área do parque é ocupada por dunas, e o conjunto é moldado pelo vento em uma configuração que não se repete em nenhum outro lugar do mundo. Como as lagoas dependem do regime de chuvas, o mapa muda a cada temporada: algumas secam, outras se rompem e há corpos d’água que enchem depois de anos vazios.

Por que a Unesco colocou o parque na lista do Patrimônio Mundial?
O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses entrou na lista em 2024, durante a sessão do Comitê do Patrimônio Mundial em Nova Délhi, avaliado por critérios de beleza natural e de formações geomórficas. O título coloca o campo de dunas no mesmo grupo do Pantanal e das Cataratas do Iguaçu, os sítios naturais brasileiros já chancelados pela organização. A candidatura foi construída pelo governo federal com o governo estadual e os municípios de Barreirinhas, Santo Amaro e Primeira Cruz.
A fauna pesou na decisão. O parque abriga quatro espécies ameaçadas de extinção: o guará, ave de plumagem vermelha, a lontra-neotropical, o gato-do-mato e o peixe-boi-marinho. Conforme o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a unidade tem 156.608,16 hectares, área maior que a do município de São Paulo. O reconhecimento internacional aproxima o destino de outro cartão-postal brasileiro chancelado pela Unesco, a cidade paranaense da tríplice fronteira que abriga uma das sete maravilhas naturais do mundo.

Quanto o turismo cresceu depois do título
O salto foi imediato. De acordo com a Secretaria de Estado do Turismo do Maranhão (Setur-MA), o fluxo pelos portais de Barreirinhas e Santo Amaro chegou a 656.388 visitantes em 2025, contra 491.658 no ano anterior, alta de 41,28%.
O volume acendeu um alerta. Reportagem do Melhores Destinos mostra que o ICMBio estuda com prefeituras, universidades federais e o Sebrae a definição de um número balizador de visitação, parâmetro que estabelece quantas pessoas uma área suporta sem degradação do solo e da vegetação. O circuito da Lagoa Bonita, alimentado por bate-voltas diários saindo de São Luís, está entre os mais disputados.

O que ver a partir de cada porta de entrada?
O parque não tem cobrança de ingresso e funciona diariamente, mas só veículos credenciados podem circular na área. Confira abaixo os circuitos e povoados que organizam a visita:
- Circuito da Lagoa Azul: saída por Barreirinhas, com trilha curta pelas dunas até uma das lagoas mais fotografadas do conjunto.
- Circuito da Lagoa Bonita: o mais movimentado, alcançado por veículo 4×4 e caminhada na areia, com vista ampla do campo de dunas.
- Circuito das Emendadas: base em Santo Amaro, formado por lagoas interligadas em sequência.
- Atins: vila de pescadores na foz do rio Preguiças, ponto de partida para travessias e para a prática de kitesurf.
- Queimada dos Britos: comunidade tradicional que vive dentro do parque, alcançada em travessias de vários dias a pé.
- Foz do Rio Negro e Lagoa Verde: trecho menos percorrido, onde o rio encontra o campo de areia.
A relação completa dos atrativos aparece no portal Parques do Brasil, do Ministério do Turismo, que também alerta para a ausência de sinal de celular na maior parte da unidade.

Como chegar ao maior campo de dunas do país
As duas principais portas de entrada são Barreirinhas e Santo Amaro do Maranhão, ambas alcançadas por estrada a partir de São Luís, capital do estado. O Ministério do Turismo registra ainda os acessos por Humberto de Campos e Primeira Cruz, menos usados. A sede administrativa do parque fica no povoado Cantinho, em Barreirinhas, e a maior parte dos passeios depende de veículo 4×4 ou de embarcação pelo rio Preguiças.

Um deserto que enche de água e esvazia todo ano
Poucas paisagens do planeta se reorganizam com essa regularidade: o mesmo trecho de areia que abriga lagoas transparentes em abril pode estar completamente seco em novembro. Essa instabilidade é justamente o que a Unesco reconheceu como valor excepcional.
Você precisa subir uma duna no fim de tarde e ver o reflexo do céu em uma lagoa que não existia no ano passado e talvez não exista no próximo.




