Morgan Stanley alerta para risco pós-eleição: dólar pode chegar a R$ 6 e juros a 18% em cenário pessimista
Banco americano aponta que ausência de um ajuste fiscal crível a partir de 2027 pode provocar desvalorização do real, alta dos juros e forte queda da Bolsa; instituição também reduziu recomendação para ações brasileiras

por Luis Eduardo
O Morgan Stanley acendeu um sinal de alerta para a economia brasileira no período posterior às eleições de 2026. Em relatório divulgado nesta quarta-feira (26), o banco americano traçou diferentes cenários para os ativos do país e avaliou que uma continuidade da atual trajetória fiscal, sem a apresentação de um plano considerado crível para controlar as contas públicas, poderia provocar uma forte deterioração dos mercados brasileiros.
No cenário mais pessimista elaborado pela instituição, o dólar poderia alcançar R$ 6, enquanto os juros futuros para janeiro de 2029 chegariam a 16,5% ao ano. Para títulos públicos prefixados com vencimento em 2037, a taxa poderia atingir 18% ao ano.
A Bolsa também seria atingida. Segundo o cenário adverso apresentado pelo Morgan Stanley, o Ibovespa poderia perder aproximadamente 25% de seu valor em reais e cerca de 35% quando calculado em dólares.
Problema está nas contas públicas
A principal preocupação apontada pelo banco não é simplesmente quem vencerá a eleição presidencial, mas qual política econômica será adotada pelo governo a partir de 2027.
O Morgan Stanley avalia que uma combinação de crescimento econômico mais fraco, inflação persistente e juros elevados pode limitar a capacidade do governo de manter gastos elevados sem medidas de ajuste fiscal. Nesse ambiente, investidores tenderiam a exigir um prêmio maior para financiar o país, pressionando o dólar e as taxas de juros.
O aumento da percepção de risco fiscal também pode reduzir investimentos, tornar o crédito mais caro para empresas e consumidores e afetar diretamente o ritmo da atividade econômica.
Apesar do alerta, o cenário de forte deterioração não é a projeção central do Morgan Stanley.
Banco trabalha com três cenários
No cenário-base da instituição, o dólar ficaria próximo de R$ 5,25, os juros futuros para janeiro de 2029 seriam de 13,75% e os títulos públicos prefixados com vencimento em 2037 teriam rendimento de aproximadamente 15%.
O banco afirma que os riscos estão apenas “modestamente” inclinados para o cenário pessimista.
Em uma situação oposta, caso o próximo governo apresente medidas capazes de recuperar a confiança dos investidores e melhorar a trajetória da dívida pública, os ativos brasileiros poderiam reagir positivamente.
No cenário otimista, o Morgan Stanley estima o dólar em aproximadamente R$ 4,50, os juros futuros em 11% e os títulos de longo prazo em cerca de 12%.
A diferença entre os cenários mostra o tamanho da importância que o mercado atribui à política fiscal que será apresentada depois das eleições.
Morgan Stanley reduz exposição recomendada ao Brasil
O alerta veio acompanhado de outra decisão relevante. O Morgan Stanley também reduziu nesta quarta-feira sua recomendação para ações brasileiras de “overweight” para “equal-weight”.
Na linguagem do mercado, “overweight” significa recomendar uma exposição ao Brasil acima da média de referência. Já “equal-weight” indica uma posição mais neutra.
Segundo o banco, a mudança foi motivada pela combinação de incertezas fiscais, riscos relacionados às eleições e desaceleração da economia brasileira.
O Morgan Stanley afirmou ainda não ter convicção sobre quem vencerá a eleição brasileira. A avaliação da instituição é que as incertezas em relação à continuidade ou mudança da política econômica aumentam especialmente os riscos para empresas mais dependentes do mercado interno.
Mesmo assim, os analistas não descartam uma reação expressiva dos ativos brasileiros caso o próximo governo consiga elevar a credibilidade fiscal. O banco considera que uma melhora das contas públicas poderia abrir espaço para juros menores, fortalecer o real e estimular uma recuperação sustentada por investimentos.
Eleição entra no radar dos investidores
Com a proximidade da disputa presidencial, a eleição brasileira passa a ser um dos principais fatores considerados pelos grandes investidores internacionais.
Mais do que o resultado das urnas, o mercado acompanha quais compromissos fiscais serão apresentados pelos candidatos e como o próximo governo pretende controlar gastos, administrar a dívida pública e criar condições para a redução dos juros.
A mensagem central do Morgan Stanley é que o Brasil poderá seguir caminhos bastante diferentes a partir de 2027.
Com um plano fiscal considerado consistente, o país poderia registrar valorização do real, queda dos juros e recuperação dos ativos. Sem medidas capazes de conter a deterioração das contas públicas, o cenário projetado pelo banco aponta para dólar mais alto, juros elevados e perdas significativas na Bolsa.
A eleição de 2026, portanto, deverá definir não apenas quem comandará o país pelos próximos quatro anos, mas também o nível de confiança que investidores nacionais e estrangeiros estarão dispostos a depositar na economia brasileira.



