Ex-funcionários travam luta judicial contra a Embaixada da Síria
Eles cobram pagamentos de direitos trabalhistas e reconhecimento de vínculo após serem demitidos da Embaixada da Síria

Ex-funcionários da Embaixada da Síria, em Brasília, travam uma guerra judicial contra a representação diplomática. Em múltiplas ações na Justiça do Trabalho, eles reinvindicam direitos violados e relatam um ambiente de pressão, com regras que contrariam as leis trabalhistas no Brasil.
Em condição de anonimato, por medo de retaliações, alguns deles ou pessoas próximas falaram sobre as rotinas de trabalho enfrentadas na embaixada.
Por muitos anos, José (nome fictício) trabalhou como motorista em diversas embaixadas em Brasília. A última experiência havia sido na representação da Síria, o que gerou uma ação trabalhista que não chegou a ter desfecho antes da morte dele, ocorrida no fim de 2025.
José começou a dirigir para a embaixada em 2016 e foi demitido em 2023. Segundo a viúva, além de motorista, ele também teria acumulado outras funções durante esse período, não previstas no contrato inicial, como limpar a piscina, podar o jardim, cuidar da portaria e, até mesmo, atividades de limpeza.
Com a demissão, José procurou a Justiça do Trabalho e fez uma série de reivindicações, como o reconhecimento do vínculo empregatício com a Embaixada da Síria, já que ele só possuía um contrato escrito; o recebimento de verbas rescisórias; pagamentos de horas extras e intervalo; realização de depósitos de FGTS; e uma multa por danos morais.
Embaixada emitiu comunicado contra motorista
No meio da disputa burocrática na Justiça, José enfrentou problemas para encontrar novos empregos na área, impulsionados por um comunicado transmitido pelo posto sírio a outras Embaixadas em Brasília.
“Ele tentou empregos em outras embaixadas, com pessoas conhecidas, para se empregar de novo, mas a Embaixada da Síria emitiu uma nota para todas as embaixadas para que não contratassem ele por má conduta”, revela a viúva do motorista.
No documento, ao qual a reportagem teve acesso (veja abaixo), a representação chefiada pela embaixadora Rania Al Haj Ali, enviada ao Brasil ainda durante o governo de Bashar al-Assad, disse ter a “honra de informar” sobre rescisão do contrato de José.

Diante de toda a situação e da indefinição em que se encontrava, e da falta de oportunidades de empregos em outras embaixadas, o motorista tirou a própria vida em novembro de 2025.
Embaixada alegou justa causa
Nos autos, a representação diplomática alegou que José foi demitido por justa causa devido a “comportamentos inadequados”, o que a defesa do motorista e a ex-companheira dele negam até hoje.
Em 2024, no entanto, a 1ª Vara do Trabalho de Brasília emitiu sentença favorável a José.
Na decisão, o juiz ordenou que a embaixada reconhecesse o vínculo empregatício com o motorista, assinasse a Carteira de Trabalho dele, depositasse valores referentes ao FGTS e pagasse o aviso prévio, férias no período de 2022-2023 e horas extras.
Ele, no entanto, não chegou a receber os pagamentos em vida, já que os recursos impostos pela Embaixada da Síria não se esgotaram até a sua morte.
A Justiça negou, ainda, um pedido sobre imunidade de jurisdição, no qual a embaixada alegou que não poderia ser julgada no Brasil por ser um Estado.
Já alguns pontos reivindicados por José também foram negados. Entre eles, está a reversão da justa causa, já que defesa e testemunhas do motorista não conseguiram fornecer provas contrárias aos argumentos utilizados pela embaixada.



