Eleições acirradas no Peru em 2026 tiveram mais de uma virada
Com cerca de 35 mil votos separando os dois candidatos, a eleição peruana teve reviravoltas até nesta reta final da apuração

A disputa presidencial no Peru em 2026 entrou para a história como uma das mais apertadas do país. Ao longo da apuração, o candidato de esquerda Roberto Sánchez e a candidata de direita Keiko Fujimori alternaram a liderança mais de uma vez, em uma disputa separada por poucos milhares e, em alguns momentos, por apenas centenas de votos.
O fenômeno das sucessivas viradas não foi resultado de erro na contagem, mas de uma combinação de fatores que transformaram a reta final da eleição em uma disputa voto a voto. À medida que as urnas continuavam sendo contabilizadas, Fujimori passou a consolidar vantagem, ampliando a diferença sobre Sánchez.
Com pouco mais de 99% das urnas apuradas, dados do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) indicavam uma frente superior a 35 mil votos para a candidata direitista, reduzindo as chances de uma nova mudança na liderança e aproximando o país da definição oficial do resultado.
A ordem de chegada dos votos mudou o cenário
As sucessivas viradas registradas durante a apuração das eleições peruanas não refletiram mudanças repentinas na preferência dos eleitores, mas sim a dinâmica da contagem dos votos. Nos primeiros resultados, Roberto Sánchez aparecia à frente impulsionado pelo desempenho em regiões rurais e do interior.
Com o avanço da apuração, porém, passaram a ser incorporados votos de grandes centros urbanos e de peruanos residentes no exterior, segmentos que favoreceram Keiko Fujimori.
Segundo o cientista social Rogério Pereira, doutor em Ciências Sociais pela UNESP, as oscilações revelam uma divisão histórica do eleitorado peruano.
“As regiões rurais possuem uma base mais voltada à esquerda, enquanto as grandes cidades apresentam maior alinhamento à direita. O tempo de apuração e o peso de cada zona eleitoral acabam gerando essa flutuação”, afirma.
O equilíbrio extremo da disputa ampliou esse efeito. Com diferenças de apenas alguns milhares e em certos momentos de poucas centenas de votos, cada novo lote apurado tinha potencial para alterar a liderança. Os votos do exterior, que costumam demorar mais para serem validados, reforçaram essa dinâmica ao entrarem na contagem apenas nas etapas finais.
Conhecido como “efeito da contagem tardia”, o fenômeno ocorre quando diferentes grupos de eleitores têm seus votos contabilizados em momentos distintos. Em uma eleição decidida por margem mínima, essa dinâmica foi suficiente para provocar múltiplas viradas e prolongar a indefinição do resultado.
Os votos do exterior fizeram a diferença
Os votos dos peruanos que vivem no exterior tiveram papel decisivo nas viradas registradas durante a apuração. Enquanto a disputa dentro do país permanecia equilibrada, Keiko Fujimori construiu ampla vantagem entre os eleitores da diáspora, conquistando mais de 63% dos votos válidos desse segmento.
Como essas cédulas passam por um processo mais demorado de coleta e validação em consulados e embaixadas, seus resultados só ganharam peso nas etapas finais da contagem. A entrada gradual dos votos vindos de países como Estados Unidos, Japão, Espanha, Chile e Argentina reduziu a diferença entre os candidatos e impulsionou a virada de Fujimori.



