Tabagismo continua em queda no Brasil, mas ritmo ameaça meta para 2030
Crise econômica, redução do investimento em políticas públicas e avanço dos cigarros eletrônicos desaceleraram o controle do consumo no país

Durante boa parte do século 20, fumar era um hábito amplamente difundido e socialmente aceito no Brasil. A publicidade associava o cigarro a sucesso, elegância e modernidade, e o consumo era comum em ambientes fechados e na presença de outras pessoas, inclusive de crianças. Esse cenário começou a mudar a partir de 1986, quando o país estruturou políticas consistentes de controle do tabaco, em resposta às evidências sobre seus danos à saúde.
Dados epidemiológicos ajudam a dimensionar essa transformação: um estudo publicado em 2007 no Bulletin of the World Health Organization aponta que, em 1989, 34,8% da população adulta brasileira era fumante. Desde então, a taxa de prevalência do hábito vem caindo de forma consistente a cada ano, consolidando o Brasil como uma referência internacional nas políticas de controle do tabaco.
Embora a tendência de queda persista, a redução perdeu velocidade nos últimos anos. Uma pesquisa publicada em dezembro de 2025 na revista Ciência & Saúde Coletiva aponta que ainda existem obstáculos a serem superados. Com base em dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde, os pesquisadores verificaram que a proporção de fumantes nas capitais estaduais tem caído em um ritmo mais lento desde 2015 e 2016.
Em 2006, aproximadamente 15,7% dos brasileiros faziam uso de tabaco; em 2023, esse valor era de 9,3%, o que representa uma redução média de 3,3% ao ano. O problema é que, se esse ritmo for mantido, os autores projetam que o país chegará a 2030 com uma prevalência de tabagismo de 7,96%, valor acima da meta de 6,24%, estabelecida para a década desde 2021 no Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis (DANT).
Uma série de fatores ajuda a explicar os motivos dessa desaceleração. “Os anos de 2015 e 2016 foram marcados por intensa instabilidade política e crises econômica e fiscal, que levaram a medidas de austeridade, cortes orçamentários e limites aos gastos públicos. Esse contexto comprometeu o financiamento e a priorização de diversas políticas sociais, incluindo ações de saúde”, analisa a médica Deborah Carvalho Malta, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e uma das autoras da pesquisa.
Outros fatores que entram na conta são: ausência de avanços regulatórios, o congelamento do preço dos cigarros entre 2016 e 2024, propostas de redução de preços dos produtos à base de tabaco, além do menor investimento em fiscalização e no combate ao contrabando. E claro: o surgimento e a popularização dos chamados dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs), que incluem cigarros eletrônicos, vapes, pods e vaporizadores, também contribui para que mais pessoas (inclusive jovens) comecem a fumar.
Os novos dispositivos
O cigarro eletrônico surgiu no início dos anos 2000 como uma proposta de redução de danos para auxiliar na cessação do tabagismo. Os primeiros dispositivos utilizavam nicotina semelhante à do cigarro convencional, o que provocava irritação na garganta e resultou em uma baixa adesão. Posteriormente, a indústria modificou a molécula, desenvolvendo os sais de nicotina, que são mais palatáveis e menos irritativos.
“A indústria do tabaco utilizou essa base inicial e investiu fortemente em marketing para vender um novo produto à base de nicotina, com opções de sabores e aromas atrativos, sobretudo para os mais jovens”, aponta a pneumologista Telma Antunes, do Einstein Hospital Israelita. Não à toa, hoje é esse o público quem mais busca ajuda nos consultórios médicos para lidar com o tabagismo.
Um estudo publicado em 2022 na Revista Brasileira de Epidemiologia, com base em dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), demonstra que a prevalência de uso de produtos do tabaco entre adolescentes no país aumentou de 10,4% para 14,8%, entre 2015 e 2019. Esse crescimento foi atribuído à adoção de cigarros eletrônicos e narguilé, já que o consumo de cigarros convencionais por esse grupo permaneceu estável no período.
A popularização dos dispositivos eletrônicos introduziu desafios inéditos às políticas de controle do tabaco, devido ao forte apelo comercial e à ideia de que ofereceriam “menor risco” à saúde. Isso reduziu o efeito das campanhas preventivas antitabagistas, tradicionalmente centradas no cigarro convencional.



