Proteção antecipada: vacinas durante a gestação defendem o recém-nascido
Anticorpos produzidos pela gestante atravessam a placenta e ajudam a proteger o bebê nos primeiros meses contra vários tipos de infecções

Antes de receber as primeiras doses do calendário de vacinação, um bebê pode chegar ao mundo carregando uma proteção que começou a ser construída ainda durante a gravidez. Os anticorpos não foram produzidos pelo organismo da criança, que ainda está amadurecendo, mas pela mãe, em resposta à vacinação.
Quando uma gestante recebe imunizantes, o sistema imunológico reconhece os componentes da vacina e passa a produzir anticorpos específicos contra os agentes infecciosos. Parte dessas proteínas de defesa circula pelo sangue materno, atravessa a placenta e alcança o feto antes do nascimento. Assim, a criança pode nascer com uma proteção temporária contra infecções que representam risco especialmente elevado nos primeiros meses de vida.
A estratégia, conhecida como imunização materna, pode cumprir duas funções ao mesmo tempo. Algumas vacinas reduzem o risco de adoecimento grave da própria gestante e também permitem que parte da resposta imunológica seja compartilhada com o bebê. Em outros imunizantes, como a vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR), a proteção da criança nos primeiros meses está entre os principais objetivos.
A importância da vacinação durante a gravidez, portanto, vai além de manter o cartão atualizado. O período gestacional cria uma oportunidade específica de proteger duas pessoas em momentos diferentes: em primeiro lugar, a mulher, que atravessa mudanças fisiológicas importantes e pode apresentar maior risco de complicações causadas por algumas infecções; depois, o bebê, que nasce sem ter completado o próprio calendário vacinal.
A própria Caderneta Brasileira da Gestante destaca que os anticorpos produzidos após a vacinação durante a gravidez podem passar para o bebê e contribuir para a proteção nos primeiros meses de vida.
Uma fase em que o bebê ainda está aprendendo a se defender
Nos primeiros meses de vida, o sistema imunológico continua em amadurecimento. O bebê ainda não teve tempo de entrar em contato com muitos agentes infecciosos nem de completar os esquemas de vacinação que estimularão a própria memória imunológica.
“O sistema imunológico do recém-nascido ainda está em formação e ele simplesmente não teve tempo de criar proteção própria”, explica Eduardo Jorge da Fonseca Lima, presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
O risco não depende apenas da imunidade porque a anatomia dos bebês também pode tornar algumas infecções mais perigosas. As vias aéreas são menores e, por isso, uma inflamação respiratória capaz de provocar sintomas leves em um adulto ou em uma criança maior pode causar, em um lactente, dificuldade importante para respirar.
“O vírus que causa um resfriado bobo em um adulto ou criança maior pode fechar o brônquio de um lactente e mandá-lo direto para a internação. É por isso que o VSR, a coqueluche e a gripe metem tanto medo nessa fase”, afirma o pediatra.
VSR, coqueluche, influenza e Covid-19 estão entre as infecções que preocupam no início da vida. O tétano neonatal representa outro exemplo histórico da importância da imunização materna.
A vulnerabilidade é maior porque o calendário da própria criança ainda está começando. Algumas vacinas são administradas nos primeiros meses, mas exigem mais de uma dose até que a resposta esteja consolidada. Outras só entram mais tarde.
Enquanto o organismo infantil amadurece e o esquema vacinal avança, existe uma janela na qual a criança ainda não consegue produzir sozinha toda a proteção de que necessita. É justamente nessa lacuna que entram os anticorpos maternos.
“A vacina da mãe funciona como uma ponte. O bebê recebe anticorpos prontos e atravessa protegido justamente os primeiros meses, que é quando a doença bate mais forte”, reforça Lima.
A estratégia não transforma o recém-nascido em alguém imune a todas as infecções, tampouco elimina a necessidade de outros cuidados. O que ela faz é reduzir uma vulnerabilidade que, em alguns casos, pode significar a diferença entre uma infecção leve e um quadro com necessidade de hospitalização.



