Margem Equatorial coloca Porto do Recife no radar do setor offshore
Diante da procurar por espaço no terminal, Porto do Recife prepara nova destinação de área antes ocupada por tanques da Petrobras

A perspectiva de avanço da exploração de petróleo e gás na Margem Equatorial coloca o Porto do Recife na rota de investimentos ligados ao mercado offshore. Empresas que atuam nesse segmento começaram a procurar a administração portuária em busca de áreas e estruturas que possam atender futuras operações associadas à nova fronteira petrolífera brasileira.
Ainda não há contratos fechados vinculados à Margem Equatorial, mas a procura já coloca o Recife na disputa por uma parte da cadeia logística e industrial que deverá se formar em torno dos projetos. A administração do Porto afirma que já está estudando oportunidades de acomodação na infraestrutura disponível.
Margem Equatorial amplia mercado offshore no Nordeste
A Margem Equatorial se estende pela costa do Amapá, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte e reúne cinco bacias sedimentares: Foz do Amazonas, Pará-Maranhão, Barreirinhas, Ceará e Potiguar.
A Petrobras considera a região uma de suas principais novas fronteiras exploratórias. No Plano de Negócios 2026-2030, a companhia prevê US$ 2,5 bilhões em investimentos na Margem Equatorial e a perfuração de 15 novos poços ao longo do quinquênio.
Esse ciclo pode movimentar uma cadeia muito mais ampla do que a atividade de perfuração propriamente dita. Operações offshore demandam armazenagem, montagem e movimentação de equipamentos, bases logísticas, transporte marítimo, serviços de engenharia, manutenção, suprimentos e áreas alfandegadas.
O terminal considera que sua infraestrutura pode funcionar como base para determinadas atividades de apoio às operações offshore, mesmo que os poços estejam localizados em outros estados do Nordeste. “É nesse mercado que o Porto do Recife pretende se posicionar”, pontua.
O Porto do Recife no pré-sal
“O Porto do Recife já está pronto, até porque tudo isso já foi montado para uma operação semelhante no passado e foi mantido“, diz Wagner Maciel, presidente do Porto do Recife
De fato, a aposta não começa do zero. O Porto do Recife já recebeu uma operação industrial ligada à cadeia de petróleo e gás durante o desenvolvimento dos projetos do pré-sal. Na época, a GE utilizou uma estrutura dentro do terminal para produção e montagem de componentes destinados a plataformas.
A operação envolveu a Navalmare, empresa italiana subcontratada pela GE. Componentes importados chegavam ao Porto, eram montados dentro de armazéns e depois transferidos para áreas de pátio até a etapa seguinte da operação.
Parte desses equipamentos tinha elevado valor agregado. Por permanecer em área alfandegada, era possível realizar procedimentos aduaneiros de exportação e posterior reimportação sem que determinados equipamentos precisassem deixar fisicamente a área portuária antes de sua destinação definitiva.
Esse modelo gerava receita relevante justamente porque agregava atividades industriais, logísticas e aduaneiras à simples movimentação da carga. A experiência é usada agora como uma espécie de cartão de visitas para empresas interessadas na Margem Equatorial.
Área alfandegada entra na disputa
Outro ativo apontado pela administração portuária é a disponibilidade de espaço. O Porto do Recife possui aproximadamente 130 mil a 135 mil metros quadrados de área alfandegada dentro da zona primária, estrutura considerada relevante para operações que envolvem equipamentos importados e exportados.
“A proximidade entre armazéns, pátios e berços também pode reduzir deslocamentos internos de cargas de grande porte”, explica o gestor portuário. Na operação anterior ligada ao setor de petróleo, por exemplo, os componentes eram montados em armazéns próximos ao cais e depois deslocados para o pátio, onde aguardavam o embarque.
O Porto possui ainda nove posições de cais, característica que a administração considera uma vantagem frente a outros portos públicos da região para operações que não dependam exclusivamente de terminais especializados.
Há, entretanto, uma limitação física: o calado. A dragagem atualmente em andamento deverá permitir ao Porto recuperar profundidade para receber navios de até aproximadamente 12 metros de calado, ampliando sua capacidade operacional.
Antiga área de combustíveis pode ganhar nova função
A possível utilização de novas áreas para atender segmentos como o offshore também representa mais um capítulo da transformação econômica do Porto do Recife.
Até a década de 1980, uma parcela significativa da movimentação de combustíveis de Pernambuco passava pelo terminal. Com a transferência dessas operações para o Porto de Suape, no litoral sul do estado, grandes áreas de tancagem perderam progressivamente sua função original. Uma das últimas estruturas remanescentes desse período é justamente o conjunto de dez tanques que agora será retirado.
A decisão permite ao Porto recuperar uma área ocupada por equipamentos considerados sem utilidade econômica para sua operação atual. Além da receita prevista com a alienação dos ativos, o espaço poderá ser direcionado a uma atividade capaz de gerar movimentação de cargas e renda portuária.
A eventual conexão dessa área com a Margem Equatorial ainda não está definida, e a administração não afirma que o espaço será destinado ao setor de petróleo e gás. A coincidência, porém, amplia as possibilidades: enquanto antigos ativos da indústria petrolífera deixam o Porto, uma nova fronteira dessa mesma indústria começa a provocar consultas por áreas dentro do terminal.



