“A Odisseia” de Christopher Nolan, é um épico sobre culpa e megalomania
Diretor junta elenco estelar para provar que sua filmografia não está tão longe assim da obra de Homero como muitos pensavam

É comum encontrarmos nas obras de diretores consagrados as marcas de suas personalidades ou histórias. Steven Spielberg com laços e dramas familiares; Martin Scorsese e a fé; Spike Lee e a paixão pelo cotidiano nova-iorquino; Ryan Coogler e a cultura afro-americana. Christopher Nolan, por sua vez, injeta em suas tramas a megalomania humana. Do homem que quer implantar uma ideia na mente de outro, em A Origem, à viagem aos confins do universo para salvar a humanidade, em Interestelar. Do herói que acredita que pode salvar uma cidade sozinho – e, quando pede ajuda, vê a tragédia acontecer – na trilogia Batman, ao homem que reúne os cientistas mais brilhantes para provar sua tese e criar uma arma nunca antes vista, em Oppenheimer.
Todos estes protagonistas são assombrados pelos fantasmas do passado, pelas decisões e consequências, e pela tentativa constante de voltar para casa – para o conforto do amor ou para um lugar de paz. Não surpreende, portanto, que o diretor tenha escolhido adaptar Odisseia, a clássica história de Odisseu (o general que invadiu Troia), como o filme seguinte ao vencedor do Oscar Oppenheimer. Odisseu personifica tudo o que Nolan sempre levou ao cinema. A ilusão da grandeza, a genialidade amaldiçoada e, como o nome da obra diz, uma odisseia pelo retorno ao lar.

Nolan, porém, enfrenta uma missão. Conseguiria ele adaptar sua assinatura hiper-realista e descritiva a uma obra que envolve mitologia grega, deuses e monstros? Acostumado a thrillers cheios de ternos, cores frias e personagens sisudos, havia um consenso de que Nolan precisaria se despir destes maneirismos. No entanto, o diretor volta a provar por que é um dos autores mais respeitados do cinema moderno e o homem de confiança de seu estúdio (ou de toda Hollywood). Em vez de mudar seu cinema, Nolan aproxima a obra de Homero de sua própria filmografia.

Claro, não vemos Odisseu e Telêmaco de terno e gravata, mas vemos a obra se tornar muito mais sóbria do que os cantos homéricos. O filme deixa explícito, na cartela que abre a história, que estamos entrando em um mundo com “alguma magia”. A fantasia, para Christopher Nolan, não precisa de floreios: ela está na fé dos homens, nas sombras que nos perseguem e nos desafios para cumprirmos nossa missão na Terra.

É assim que encontramos Penélope (Anne Hathaway) e Telêmaco (Tom Holland), esposa e filho de Odisseu (Matt Damon), que esperam há 20 anos o retorno do herói da Guerra de Troia. Com os pretendentes ao lugar vago do rei enchendo o palácio, o jovem príncipe decide partir em busca de respostas. Longe dali, Odisseu vive perdido ao lado de Calipso (Charlize Theron) e, a partir de suas lembranças, conhecemos o caminho que ele percorreu desde o fim da guerra.

A não linearidade da trama do livro Odisseia é uma das grandes marcas da arte e literatura clássicas, e Nolan se aproveita disso para contar a história da forma que mais gosta. O vai e vem temporal costura a viagem de Odisseu e sua amargura perante as conquistas – e as consequências delas – com o drama da família que vive o espólio da ausência.

Assim como em Oppenheimer e seu dilema moral após criar uma arma capaz de dizimar a vida de milhares de pessoas em segundos, a jornada de Odisseu também é um caminho de penitências e um acerto de contas com a própria consciência. Chamado de herói, ele vê em sua criação um mal que pode acabar de vez com a humanidade como ele a conhece. Ao criar um presente em nome dos deuses, infestado de ódio, vingança e ressentimento, Odisseu entrega ao mundo uma chaga que será contada e recontada por milhares de anos. E é aí que reside a grande odisseia que ele precisa enfrentar: despir-se do manto do herói e do líder respeitado por seus comandados.




