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Fauci, a politização da ciência e as perguntas que ainda precisam ser respondidas

Artigo de Luis Eduardo Fernandes

WASHINGTON, DC – JUNE 03: Dr. Anthony Fauci, former Director of the National Institute of Allergy and Infectious Diseases, testifies before the House Oversight and Accountability Committee Select Subcommittee on the Coronavirus Pandemic at the Rayburn House Office Building on June 03, 2024 in Washington, DC. The Subcommittee is holding a hearing on the findings from a fifteen month Republican-led probe of former Director of the National Institute of Allergy and Infectious Diseases Dr. Anthony Fauci and the COVID-19 pandemic’s origins. (Photo by Chip Somodevilla/Getty Images)

Anthony Fauci voltou ao centro da controvérsia nos Estados Unidos. Convocado pelo Senado para falar sobre a pandemia, o ex-diretor do principal instituto americano de doenças infecciosas preferiu invocar a Quinta Emenda e não responder às perguntas. É importante esclarecer: exercer esse direito constitucional não é uma confissão de culpa. Mas, para alguém que durante anos foi apresentado como a voz máxima da ciência, o silêncio inevitavelmente aumenta a desconfiança e reabre feridas que nunca cicatrizaram.

Entre essas feridas está a maneira como foram tratados medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina.

No início da pandemia, ninguém conhecia completamente o vírus. Não existiam vacinas, protocolos consolidados ou medicamentos específicos. Médicos e pesquisadores buscavam alternativas entre substâncias já disponíveis, tentando encontrar alguma forma de impedir o agravamento dos pacientes.

A cloroquina não surgiu apenas de discursos políticos. Havia estudos laboratoriais, relatos médicos e hipóteses científicas que justificavam investigação. Tanto é verdade que a própria agência reguladora dos Estados Unidos, a FDA, autorizou emergencialmente, em março de 2020, o uso de cloroquina e hidroxicloroquina em determinadas situações hospitalares. Meses depois, diante de novos resultados e preocupações com efeitos cardíacos, essa autorização foi revogada.

Isso demonstra que investigar esses medicamentos não era loucura, charlatanismo ou crime. Era ciência em andamento.

O erro começou quando a ciência deixou de ser apresentada como um processo aberto e passou a ser tratada como uma verdade política pronta e inquestionável. Em vez de dizer “ainda não sabemos”, muitas autoridades, jornalistas e organizações decidiram ridicularizar qualquer médico ou cidadão que levantasse dúvidas.

Fauci se tornou o principal símbolo dessa postura.

Sua palavra passou a ser tratada não apenas como orientação técnica, mas quase como sentença definitiva. Quem discordava era chamado de negacionista. Quem defendia pesquisas com medicamentos baratos era imediatamente associado à desinformação. E quem questionava decisões oficiais passou a ser tratado como inimigo da ciência.

Mas ciência não exige obediência. Ciência exige dúvida, teste, comparação, transparência e liberdade para reconhecer erros.

Os grandes estudos realizados posteriormente não comprovaram benefício clínico relevante da hidroxicloroquina em pacientes hospitalizados, e ensaios com pessoas tratadas no início da doença também não demonstraram a eficácia que muitos esperavam. Da mesma forma, um grande estudo realizado com ivermectina no Brasil não encontrou redução significativa de internações ou permanência prolongada em pronto atendimento.

Esses resultados precisam ser respeitados. Não seria responsável afirmar hoje que a cloroquina ou a ivermectina teriam certamente salvado milhares de vidas.

Mas isso não encerra a discussão sobre a conduta das autoridades.

A pergunta legítima é outra: esses medicamentos foram estudados com a rapidez, a serenidade e a abertura necessárias, especialmente nas fases mais iniciais da infecção? Houve espaço verdadeiro para pesquisadores independentes? Os protocolos foram avaliados sem influência política, interesses econômicos ou medo de contrariar autoridades?

Talvez nenhum desses medicamentos tivesse mudado o rumo da pandemia. Mas, naquele momento, essa resposta ainda não existia. E transformar dúvidas legítimas em pecado político pode ter afastado médicos, pesquisadores e pacientes de um debate que deveria ter sido exclusivamente científico.

A politização também aconteceu no Brasil.

Jair Bolsonaro apostou sua imagem na defesa da cloroquina. Seus adversários, por outro lado, passaram a atacar não apenas Bolsonaro, mas o próprio medicamento, seus pesquisadores e qualquer pessoa que defendesse novos estudos.

Bolsonaro cometeu erros graves de comunicação durante a pandemia. Frequentemente falou com certeza onde deveria ter demonstrado prudência. Também criou conflitos desnecessários em torno de vacinação, máscaras e medidas sanitárias.

Mas aqueles que o chamaram repetidamente de “genocida” também deveriam fazer uma autocrítica.

Discordar de um presidente não autorizava ninguém a encerrar o debate científico. Criticar os exageros de Bolsonaro não deveria significar tratar como criminosos os médicos que buscavam opções para seus pacientes quando praticamente nenhuma terapia estava disponível.

O problema é que, para uma parcela da imprensa e da política, a eficácia de um medicamento parecia depender de quem o defendia. Se Bolsonaro falava em cloroquina, a substância precisava ser demonizada. Se Donald Trump levantava uma hipótese, a hipótese automaticamente virava desinformação.

Isso não é ciência. É militância usando jaleco.

É impossível afirmar quantas pessoas morreram por causa dessa politização. Não há base para dizer que milhares de mortes teriam sido evitadas com cloroquina ou ivermectina. Mas também seria ingênuo negar que a guerra ideológica confundiu a população, rompeu a confiança entre médicos e pacientes e transformou decisões de saúde em atos de fidelidade política.

A politização pode ter custado vidas por vários caminhos: pessoas que confiaram excessivamente em medicamentos ainda não comprovados, pessoas que rejeitaram vacinas, pacientes que demoraram a buscar atendimento e pesquisadores que passaram a evitar determinados temas por medo de perseguição.

Curiosamente, quando outro medicamento barato e antigo, a dexametasona, demonstrou benefício claro para pacientes hospitalizados que precisavam de oxigênio, ele foi incorporado aos protocolos. Isso comprova que reaproveitar medicamentos existentes era uma estratégia científica válida — desde que os resultados fossem demonstrados em estudos bem conduzidos.

A lição que fica não é que Bolsonaro estava certo em tudo, nem que Fauci estava errado em tudo.

A lição é que nenhum político, médico, agência reguladora ou autoridade científica pode ser colocado acima das perguntas.

Fauci precisa responder sobre as decisões tomadas durante a pandemia, sobre a origem do vírus, sobre o financiamento de pesquisas e sobre a forma como alternativas terapêuticas foram avaliadas e comunicadas. Não porque já tenha sido considerado culpado, mas porque quem exerceu tanto poder e influência pública tem o dever de prestar contas.

E aqueles que transformaram Bolsonaro no único responsável moral pelas mortes também precisam reconhecer que simplificaram uma tragédia mundial para alimentar uma narrativa eleitoral.

Na pandemia, faltaram certezas e sobraram donos da verdade.

Talvez cloroquina, ivermectina e outros medicamentos não fossem a solução esperada. Mas pesquisar, questionar e debater nunca deveria ter sido motivo de perseguição.

Porque quando a política manda na ciência, a verdade é a primeira vítima.

E, numa crise sanitária, a verdade raramente morre sozinha.

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