Economia

Crise política no Paraguai pode afetar investimentos e indústria brasileira; entenda os riscos

Especialistas apontam possíveis impactos sobre cadeias produtivas integradas e empresas com operações no país vizinho

A renúncia do presidente do Paraguai pode provocar reflexos nas relações econômicas com o Brasil, especialmente no comércio bilateral, nos investimentos e nas negociações no âmbito do Mercosul. Economistas avaliam os possíveis impactos para empresas brasileiras, exportações e setores que mantêm relações comerciais com o país vizinho.

O presidente paraguaio, Santiago Peña, renunciou ao cargo nessa quinta-feira (5), em meio a uma crise política e financeira desencadeada pela liquidação e intervenção de um banco digital, que bloqueou as contas de milhares de correntistas. Peña era acionista da instituição.

O professor de Relações Internacionais do Ibmec-RJ Leonardo Paz avalia que a instabilidade pode atingir empresas brasileiras que transferiram parte de suas operações para o Paraguai em busca de custos menores de produção, benefícios tributários e proximidade geográfica.

Segundo ele, o país vizinho se tornou um destino relevante para investimentos brasileiros, especialmente de indústrias que buscam aproveitar a mão de obra mais barata e a carga tributária reduzida.

Tem muita indústria brasileira, muita empresa brasileira indo produzir lá. O imposto é baixo, a mão de obra é muito barata, é próximo, obviamente, do Brasil. Então, eu acho que o primeiro momento, a grande questão é como as empresas vão segurar o seu investimento”

Paz considera que a renúncia, por si só, não deve provocar necessariamente uma ruptura institucional, uma vez que a expectativa é de continuidade política com a chegada do vice-presidente ao comando do país. Para ele, o principal desafio imediato será reorganizar o sistema financeiro e garantir condições para a recuperação dos recursos dos correntistas afetados pela liquidação do banco.

A preocupação, segundo o professor, é que uma eventual restrição ao acesso a empréstimos, seguros e outros serviços financeiros prejudique empresas paraguaias que dependem de insumos brasileiros e companhias nacionais que mantêm subsidiárias no país.

Um problema no Paraguai é a incapacidade das empresas paraguaias de conseguir acessar o mercado financeiro, pagar seus funcionários, contrair empréstimo, rolar dívida, contratar seguro. Se isso atrapalhar as empresas que têm subsidiárias no Paraguai, atrapalha a sede do Brasil”, explica.

O especialista destaca que setores como o de máquinas e equipamentos e o automobilístico podem sentir os efeitos de uma eventual deterioração do ambiente econômico paraguaio, devido à integração das operações produtivas entre os dois países.

Indústria e agronegócio

O Brasil e o Paraguai mantêm cadeias produtivas integradas, com circulação de insumos industriais e agrícolas. O Paraguai também atrai empresas brasileiras por meio de incentivos tributários e custos de produção menores.

Um dos mecanismos que favorecem essa integração é a chamada Lei das Maquilas, que estimula a importação de peças e componentes para montagem de produtos em território paraguaio, destinados posteriormente ao mercado brasileiro e a outros países do Mercosul.

O mestre em Finanças e professor do Ibmec Brasília, Marcos Sarmento, afirma que a indústria e o agronegócio estão entre os segmentos brasileiros que podem ser afetados por mudanças nas políticas econômicas do país vizinho.

“Os principais setores que podem ser afetados são a indústria e o agronegócio. O Paraguai compra insumos semi e industrializados para montar produtos em seu território. Há também forte fluxo de insumos e produtos agrícolas”, afirma.

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