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Petróleo da Margem Equatorial vai mudar o Jogo para o Amapá e o Brasil?

Três descobertas no poço Morpho ampliaram a expectativa em torno do petróleo na costa do Amapá. A produção comercial ainda não está confirmadaTrês descobertas no poço Morpho ampliaram a expectativa em torno do petróleo na costa do Amapá. A produção comercial ainda não está confirmada, mas efeitos já aparecem em negócios locais

Três descobertas no poço Morpho ampliaram a expectativa em torno do petróleo na costa do Amapá. A produção comercial ainda não está confirmada, mas a perfuração já se traduz em negócios. Em Oiapoque, no extremo norte do estado, hotéis recebem equipes, o comércio se anima, empresas locais já veem a demanda dobrar e o mercado imobiliário se aquece.

Em Macapá, a 600km dali, empresários também se preparam para disputar contratos da estatal. Com apoio do Sebrae Amapá, as empresas tentam transformar essa demanda inicial em uma participação mais duradoura na cadeia de petróleo e gás. Em comum, a vontade de que o petróleo descoberto na costa transforme suas vidas.

A terceira descoberta de petróleo no poço Morpho, no bloco FZA-M-59, na costa do Amapá, foi anunciada na semana passada, dia 29 de outubro. O óleo está em águas ultraprofundas, a 2.886 metros de lâmina d’água e a cerca de 175 quilômetros da costa. A perfuração e a coleta de dados geológicos terminaram, mas a companhia ainda precisa avaliar volumes, qualidade dos reservatórios e características dos fluidos.

Nossa persistência técnica permitiu que fossem realizadas três descobertas no mesmo poço, o que nos deixa ainda mais otimistas em relação ao potencial exploratório da Margem Equatorial”, afirmou Magda Chambriard, presidente da Petrobras, em comunicado.

O otimismo da empresa não equivale à confirmação de reservas comerciais. Mesmo se forem identificados volumes suficientes para viabilizar a produção, o início da extração poderia levar de seis a sete anos. A companhia ainda vai furar outros três poços no bloco para aprofundar a avaliação. Até 2030, serão investidos US$ 2,5 bilhões (R$ 13,7 bilhões)e perfurados 15 poços em toda a Margem Equatorial.

O que já chegou a Oiapoque

Simone Aviz chegou a Oiapoque vinda de Belém há quase oito anos, depois de cerca de 15 anos de idas e vindas à cidade. Trabalhava em uma distribuidora de hortifruti e não tinha experiência em hotelaria quando os proprietários do Hotel Vila Morena, um casal franco-brasileiro, a convidaram para assumir a operação. Há quase quatro anos no comando, primeiro arrendou o estabelecimento e depois assinou um contrato de compra e venda. Hoje, é a proprietária.

Desde junho de 2025, a Petrobras mantém bloqueados 60% dos quartos do hotel. O estabelecimento recebe equipes que trabalham no aeroporto e na sonda, oferece salas e coffee breaks e presta serviços de lavanderia. Também hospeda profissionais que precisam pernoitar em Oiapoque quando as condições do tempo impedem o deslocamento entre a sonda e Macapá. Para atender a essa demanda, ela comprou máquinas industriais e ampliou a equipe de 13 para 18 funcionários.

O efeito aparece na operação do Vila Morena, mas não significa que o fluxo seja constante em toda a cidade. No Hotel Beira Rio, a recepcionista Silver Cerqueira relatou que o movimento ligado à Petrobras diminuiu depois dos períodos de simulação.

A presença da Petrobras, ao longo destes cinco anos, pouco mudou a estrutura da cidade de cerca de 30 mil habitantes. Precisou fazer melhorias no aeródromo local para adequá-lo às exigências dos órgãos reguladores. De lá,  vinha realizando voos de avião para Macapá e de helicóptero para a sonda, de segunda a sexta-feira.

Também construiu uma unidade de atendimento e Reabilitação de Fauna de Oiapoque. A estrutura foi licenciada em 2025 pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amapá (Sema) e é vinculada à Mineral Engenharia e Meio Ambiente, responsável pelo centro.

Em outubro do ano passado, técnicos da Sema participaram de treinamento teórico e prático na unidade para resgate, estabilização e reabilitação de animais atingidos por óleo em um vazamento, como parte das condicionantes do licenciamento ambiental.

No começo deste ano, a empresa registrou um incidente durante a perfuração do poço Morpho. Em 4 de janeiro de 2026, a Petrobras comunicou ao Ibama o vazamento de fluido de perfuração não aquoso por duas linhas auxiliares conectadas à sonda. A Petrobras interrompeu as operações, isolou as linhas afetadas e paralisou o vazamento.

Vale lembrar, que em 2023, o Ibama havia negado uma licença para perfurar o FZA-M-59, apontando inconsistências técnicas e a ausência de uma avaliação ambiental estratégica para a região. A licença para a perfuração exploratória foi concedida só em outubro de 2025, após novas etapas do processo.

Fornecedores de Macapá e Oiapoque se preparam

Em Oiapoque, a Lunay Empreendimentos já atende à Mineral, empresa prestadora de serviços ambientais para a Petrobras. O dono da Lunay, Luiz Ataíde, está há cerca de 40 anos na cidade. A empresa atua com navegação, extração de areia e seixo, artefatos de concreto e manutenção de embarcações.

Ele vê espaço para ampliar os serviços portuários, mas diz que o investimento esbarra na dificuldade de obtenção de crédito. “Eu faria infinitas obras aqui, mas eu não tenho o capital ainda para isso”, afirma. Entre os planos estão construir uma rampa de concreto para acessar o trapiche e ampliar a capacidade de apoio às embarcações.

A falta de mão de obra qualificada é outro limite. Ataíde diz que tem dois tornos mecânicos sem profissionais aptos a operá-los e defende a formação de trabalhadores da região para reduzir a dependência de mão de obra de Macapá e Belém.

Em Macapá, Walmir Zandonaidy construiu a Gênesis ao longo de mais de duas décadas. A malharia atende encomendas de igrejas, campanhas políticas e equipes esportivas; durante a pandemia, também produziu jalecos e máscaras para hospitais. Em 2024, ele montou uma fábrica de bonés, a primeira do Amapá, uma forma de atender a uma demanda que, segundo conta, antes dependia de fornecedores de Belém. “A demanda do dia a dia é tão grande que a gente não tem tempo de fazer estoque”, diz.

A Petrobras é uma possível nova frente para a empresa. Walmir obteve o Certificado de Registro Cadastral (CRC) e recebe avisos de licitações e pedidos de cotação para uniformes e macacões. Para disputar os pedidos, pesquisa tecidos, amostras e requisitos técnicos. Ele diz que já comprou um terreno para uma futura expansão: “É para fazer um galpão que vai ser meu polo industrial”.

Base logística, cursos e fundo soberano

A localização de uma eventual base de apoio ainda está em estudo. Um grupo formado pela Transpetro e pelo governo estadual em dezembro de 2025 deve apresentar neste mês os resultados de visitas e levantamentos preliminares, segundo a Agência Amapá. A Petrobras afirma que a logística de uma possível fase de produção dependerá da viabilidade econômica das descobertas e do porte dos projetos.

A possibilidade de arrecadar royalties também levanta uma questão para o governo: como transformar uma receita ligada a um recurso que pode se esgotar em benefícios que durem além da produção de petróleo. Uma das propostas da Agência Amapá é criar um fundo soberano, uma reserva pública para guardar e investir recursos do Estado.

O que pode mudar para o Brasil

Para o Brasil, a Margem Equatorial é uma nova fronteira de exploração que a Petrobras associa à reposição de reservas e ao atendimento da demanda por energia. A companhia afirma já ter perfurado mais de 700 poços ao longo de toda a Margem Equatorial e prevê US$ 2,5 bilhões e 15 novos poços para a região até 2030. São planos de exploração, sem garantia de que os poços resultarão em descobertas comerciais.

Se o petróleo se tornar comercial, o desafio será transformar a exploração em benefícios que permaneçam no Amapá. A preocupação tem raízes em uma experiência anterior.  Entre 1957 e 1997, a mineradora Indústria e Comércio de Minérios S.A. (ICOMI) explorou manganês em Serra do Navio e escoou o minério por uma ferrovia até o porto de Santana. A atividade terminou com o esgotamento das reservas.

Composição da Estrada de Ferro do Amapá. O projeto Icomi na Serra do Navio  fez a extração de mais de 10 milhões de toneladas de manganês nos 50 anos  de atividade da

 

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