Vorcaro cita Amapá em relato sobre captação bilionária do Banco Master
Ex-banqueiro afirma que ACM Neto e Antônio Rueda teriam intermediado investimentos de fundos públicos; AMPREV aplicou R$ 400 milhões no Master

O Amapá aparece diretamente em uma nova revelação envolvendo as investigações sobre o Banco Master. Daniel Vorcaro afirmou, em uma proposta de colaboração premiada, que ACM Neto e Antônio Rueda, dirigentes do União Brasil, teriam atuado para abrir portas para o banco em institutos de previdência do Amapá, Rio de Janeiro e Amazonas.
Segundo reportagem publicada pelo site UOL nesta quinta-feira (10), Vorcaro afirmou que a atuação dos dois políticos teria contribuído para a captação de aproximadamente R$ 2 bilhões pelo Master e que havia previsão de pagamento correspondente a 10% dos recursos captados, o equivalente a até R$ 200 milhões. O ex-banqueiro, porém, não informou quanto teria sido efetivamente pago.
A proposta de colaboração apresentada por Vorcaro não foi aceita pela Polícia Federal nem pela Procuradoria-Geral da República (PGR). As alegações, portanto, não constituem fatos comprovados judicialmente e ainda dependem de elementos independentes de confirmação.

AMPREV aplicou R$ 400 milhões
A Amapá Previdência (AMPREV), responsável pelo regime previdenciário dos servidores estaduais, aplicou aproximadamente R$ 400 milhões em Letras Financeiras do Banco Master. As operações já estão sob investigação da Polícia Federal.
Os investimentos foram realizados em três etapas durante 2024: R$ 200 milhões em julho, seguidos por dois aportes de R$ 100 milhões.
Em fevereiro deste ano, a Polícia Federal deflagrou a Operação Zona Cinzenta, com cumprimento de mandados de busca e apreensão em Macapá para investigar possíveis irregularidades relacionadas às aplicações da previdência estadual no Master.
Vorcaro não acusa dirigentes da AMPREV
De acordo com o material divulgado, a proposta de Vorcaro não cita dirigentes dos institutos de previdência como participantes do suposto esquema e tampouco descreve atos específicos praticados por eles para favorecer o Banco Master.
Vorcaro afirma genericamente que ACM Neto e Antônio Rueda teriam “intermediado” a entrada dos investimentos. A proposta também não individualiza quanto dos R$ 2 bilhões mencionados pelo ex-banqueiro corresponderia a cada instituição.
O aporte de R$ 400 milhões da AMPREV foi aprovado por comitê presidido por Jocildo Silva Lemos.

Valores não fecham
Vorcaro fala em aproximadamente R$ 2 bilhões captados, mas os investimentos das quatro instituições que ele atribui à suposta intermediação política somam cerca de R$ 3,62 bilhões.
Segundo os dados apresentados, foram aproximadamente R$ 2,97 bilhões do Rioprevidência, R$ 400 milhões da AMPREV, R$ 200 milhões da Cedae e R$ 50 milhões da Amazonprev. A proposta não explica a diferença.
O que dizem os citados
Antônio Rueda afirmou não ter acesso ao documento e negou irregularidades. Sustentou que os contratos firmados pelo escritório do qual foi sócio eram lícitos e que os serviços advocatícios foram efetivamente prestados.
ACM Neto classificou as alegações como falsas e ressaltou que a proposta de colaboração não foi aceita nem homologada. Também afirmou que os serviços de consultoria contratados foram efetivamente executados e que está à disposição das autoridades.
A AMPREV, por meio de nota, informou que os investimentos realizados pela AMPREV obedecem a critérios técnicos, legais e de governança e são submetidos às instâncias competentes de análise e deliberação, em conformidade com a Política de Investimentos da instituição e com as normas aplicáveis aos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS). Diz ainda que as decisões relacionadas à aplicação dos recursos previdenciários seguem o fluxo institucional estabelecido, com análise do Comitê de Investimentos da AMPREV (CIAP) e deliberação pelas instâncias competentes do Conselho Estadual de Previdência (CEP), não se tratando, portanto, de decisões de caráter individual. A época em que foram realizadas as aplicações, o Banco Master encontrava-se autorizado a funcionar pelo Banco Central do Brasil e integrava regularmente o Sistema Financeiro Nacional. A liquidação extrajudicial da instituição financeira ocorreu posteriormente, em novembro de 2025. Desde então, a AMPREV vem adotando as providências administrativas e judiciais cabíveis para a proteção e recuperação dos recursos investidos, acompanhando os procedimentos relacionados à liquidação da instituição financeira e atuando na defesa do patrimônio previdenciário dos servidores do Estado do Amapá.
A AMPREV esclarece, ainda, que a situação envolvendo o Banco Master não compromete o pagamento regular de aposentadorias e pensões, permanecendo assegurado o cumprimento das obrigações previdenciárias da instituição. No que se refere aos empréstimos consignados, os valores descontados de servidores, aposentados e pensionistas estão sendo depositados em conta específica no Banco do Brasil, em cumprimento à determinação judicial, como medida de proteção dos recursos enquanto o processo permanece em tramitação. Afirma estar colaborando integralmente com as autoridades competentes, disponibilizando documentos, informações e todos os esclarecimentos solicitados no âmbito das apurações em andamento.
Por fim, a AMPREV ressalta que as informações veiculadas na reportagem decorrem de declarações atribuídas ao controlador do Banco Master, apresentadas no contexto de proposta de colaboração que, conforme informado pela própria reportagem, não foi aceita pelas autoridades competentes.
Investigação continua
O novo relato surge enquanto avançam diferentes frentes de investigação sobre o Banco Master e Daniel Vorcaro.
No Amapá, a questão central permanece sendo esclarecer como foram decididos os R$ 400 milhões em investimentos da previdência estadual e se houve alguma influência externa sobre essas decisões.
A nova versão apresentada por Vorcaro acrescenta uma peça importante a essa investigação ao colocar explicitamente o Amapá entre os estados onde, segundo ele, teria ocorrido intermediação política para a captação de recursos públicos pelo Banco Master.
Até o momento, entretanto, essa afirmação é uma alegação do próprio investigado apresentada em uma tentativa de colaboração que foi recusada pelas autoridades. Caberá às investigações determinar se existem documentos, mensagens, movimentações financeiras ou outros elementos capazes de comprová-la.



