Sem Wesley, Ancelotti perde força ofensiva e terá de mudar estrutura do time
Treinador tem seis dias para consolidar a base da seleção brasileira na estreia na Copa do Mundo de 2026

O corte de Wesley, confirmado neste domingo (7) após exame de ressonância que indicou lesão muscular na coxa esquerda, vai obrigar o técnico Carlo Ancelotti a mexer na estrutura da equipe.
A espinha dorsal da seleção brasileira parecia desenhada na sua cabeça. Alisson no gol. Wesley, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos formando a linha defensiva. Casemiro e Bruno Guimarães comandando o meio-campo. Na frente, um conjunto móvel construído para explorar velocidade, técnica e troca constante de posições. Mas, como acontece em qualquer planejamento, a realidade apresentou um obstáculo inesperado.
A lesão de Wesley contra o Egito e o corte abriram a primeira grande interrogação do Mundial. O lateral vinha sendo peça fundamental, não apenas por suas características individuais, mas pelo impacto que causava na estrutura coletiva da equipe. Sem a bola, o Brasil se organizava em um 4-4-2 compacto. Com a posse, porém, a fotografia mudava completamente. Douglas Santos fechava por dentro ao lado de Marquinhos e Gabriel Magalhães, formando uma linha de três defensores. Wesley ganhava liberdade total para avançar e praticamente atuar como um ponta pela direita.
Era uma engrenagem pensada para potencializar a agressividade ofensiva da seleção. Nem Danilo, nem Ibañez reproduzem esse comportamento de forma natural. Agora, Ancelotti terá de pensar numa nova solução.
Danilo é favorito a assumir posição
Danilo surge como a alternativa mais provável. Experiente, líder do elenco e conhecedor dos grandes torneios, oferece segurança e leitura tática. Em compensação, exige adaptações na forma de atacar. O corredor direito perde profundidade e o time passa a depender mais das movimentações dos homens de frente.
Ibañez representa uma solução diferente. Sua entrada poderia fortalecer a linha defensiva e permitir novas variações estruturais, mas também afastaria o Brasil da ideia original concebida por Ancelotti durante a preparação.
A convocação de Éderson, um volante, surpreendeu. Ancelotti tinha na lista de 55 pré-convocados outros dois laterais-direitos, Vitinho, do Botafogo, e Paulo Henrique, do Vasco. A escolha do meia do Atalanta, da Itália, pode indicar que o técnico esteja repensando em reforçar o setor e ganhar mais opções, já que havia convocado apenas 5 jogadores de meio-campo na lista inicial: Casemiro, Bruno Guimarães, Fabinho, Danilo Santos e Paquetá.
Dia D do técnico: as escolhas na reta final
Neste sentido, o amistoso de sábado, contra o Egito — no mesmo dia 6 de junho que ficou famoso como o Dia D da Segunda Guerra Mundial pelo desembarque das forças aliadas na Normandia — também pode significar uma data marcante para Carlo Ancelotti nas suas decisões finais para montar a seleção brasileira para a estreia.Ele tem seis dias até o jogo contra o Marrocos, no próximo sábado (13), o primeiro no grupo C do Mundial, para escolher o time titular.
Se existe uma área em que o treinador parece confortável, ela está nas duas posições de volante no meio-campo. Casemiro e Bruno Guimarães formam hoje uma das duplas mais equilibradas da Copa. O meia do Manchester United funciona como o guarda-costas da equipe, protegendo a defesa e organizando as coberturas. Bruno é o elo entre a contenção e a criatividade. Marca, participa da construção e aparece na área adversária como elemento surpresa.
Não por acaso, foi dele o primeiro gol brasileiro diante do Egito. Depois de um período de recuperação de uma lesão de grau 3 no posterior da coxa esquerda, que chegou a afastá-lo por mais de dois meses dos gramados, Bruno parece ter voltado à melhor forma.
Paquetá seria alternativa no meio
Mas existe uma alternativa que também pode ganhar força nos próximos dias. Em vez de mexer apenas na defesa, com a entrada de Danilo ou Ibañez, Ancelotti pode optar por reforçar o meio-campo com a entrada de Lucas Paquetá. O meia teve boa atuação diante do Panamá, quando participou da construção das jogadas e ajudou a dar fluidez à equipe. Contra o Egito, porém, passou mais discreto e não conseguiu repetir o mesmo nível de influência.
A presença de Paquetá adicionaria mais controle e qualidade na circulação da bola em uma região do campo que costuma decidir partidas de Copa do Mundo. Ao mesmo tempo, obrigaria o treinador a realizar ajustes no setor ofensivo. Não necessariamente uma mudança de conceito, já que a mobilidade dos atacantes continuaria sendo uma característica da equipe, mas provavelmente uma alteração de peças para acomodar um homem a mais na faixa central. Seria uma forma de tornar o Brasil mais forte na posse de bola e no controle do ritmo do jogo, especialmente diante de adversários que congestionam os espaços entre as linhas.
Para o meio, Ancelotti ainda tem a opção de Danilo Santos, que se destacou nos últimos três amistosos e corre por fora para ganhar uma vaga. Com a convocação de Éderson, o treinador ainda ganha mais uma alternativa para reforçar o setor.
Brilho de Endrick cria dúvida no ataque
A grande dúvida parece estar alguns metros à frente.
O setor ofensivo é justamente onde as certezas de Ancelotti convivem com as atuações que pedem revisão. A ideia inicial passa por um quarteto extremamente móvel. Raphinha, Matheus Cunha e Luiz Henrique alternando posições constantemente, enquanto Vini Jr. parte do lado esquerdo para acelerar, driblar e atacar os espaços.
Na teoria, um sistema difícil de ser marcado.
Na prática, porém, a entrada de Endrick contra o Egito reacendeu o debate. O jovem atacante marcou o gol da vitória, aumentou a intensidade ofensiva e mostrou mais uma vez que consegue transformar poucos minutos em impacto imediato.
São aquelas dúvidas que todo treinador gosta de ter.
Por isso, o amistoso em Cleveland talvez tenha sido mais importante do que o placar sugere. Assim como o Dia D de 1944 não representou o fim da guerra, mas o começo da ofensiva decisiva, a vitória sobre o Egito não entregou troféus nem garantiu conquistas. O que ela fez foi indicar um caminho.
Um caminho que Ancelotti acredita já conhecer.
Resta saber se as certezas que o italiano trouxe na bagagem resistirão aos imprevistos que surgiram pelo percurso ou se, como acontece em toda grande campanha, serão justamente as boas dúvidas que ajudarão a conduzir o Brasil rumo ao tão sonhado hexacampeonato.



