Crítica

“Spider-Noir” é um show de Nicolas Cage e estilo preto e branco enche os olhos

Série do Prime Video adapta versão do Homem-Aranha após sucesso em Aranhaverso

Há muita conversa sobre qual é o super-herói mais famoso do mundo, mas o que é indiscutível é que o Homem-Aranha é um dos mais amados. Das crianças aos adultos, o Cabeça de Teia conquista e segue conquistando corações. Não é à toa que um dos filmes mais aguardados do ano é Homem-Aranha: Um Novo Dia, enquanto em 2027 teremos Além do Aranhaverso, conclusão da saga com Miles Morales. Agora, o Prime Video lança Spider-Noir, a versão “adulta” do herói, passada na Nova York da década de 1930.

O personagem roubou a cena em Homem-Aranha no Aranhaverso, longa que reuniu diversas versões peculiares do herói, mas foi a atuação de Nicolas Cage que mais chamou a atenção dos fãs. Agora em live-action, o ator volta a vestir a máscara, o chapéu e o sobretudo de Ben Reilly, o detetive particular que, entre uma investigação e outra, se balança pelos prédios da cidade.

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A série começa cinco anos depois que Reilly perdeu o amor de sua vida, Ruby, assassinada em uma trama de vingança. Aposentado de seus serviços como o Aranha, o detetive vive enchendo a cara, devendo o salário de sua secretária e caçando apenas maridos infiéis para a meia dúzia de clientes que arranja. Quando ele se vê envolvido em uma trama que mexe com o chefão da máfia Cabelo de Prata (Brendan Gleeson), a cantora Cat Hardy e seres superpoderosos, Ben tem que voltar à ativa.

A série de oito episódios trabalha perfeitamente a ambientação noir, especialmente na versão em preto e branco (vale destacar que o Prime Video lançará tanto a versão monocromática quanto a colorida ao mesmo tempo). O uso de luz e sombras, fumaça de cigarro e a montagem de cenas que misturam planos holandeses, reflexos e personagens de perfil é deslumbrante. O mesmo pode ser dito da interessante mixagem de áudio, que brinca com sons abafados e efeitos clássicos como socos e tiros. Tudo ajuda a criar uma ambientação revigorante para o gênero de heróis, no melhor estilo Dick Tracy, de 1990.

A parte técnica prepara o terreno para a grande estrela deste show: Nicolas Cage. Ben Reilly é a versão perfeita de um herói para o ator. Afetado, debochado e escandalosamente engraçado, o detetive beberrão herda os olhos esbugalhados, a gargalhada e as mãos nervosas de Cage, elementos que dão o tom perfeito para o protagonista do gênero que a história se propõe a homenagear. Assim como fez nos primeiros minutos de Renfield, onde encarnou o Drácula em homenagem a Bela Lugosi — e aqui ele fica idêntico ao ator quando Reilly está preso em um armário —, Cage bebe da fonte do cinema americano dos anos 1930 e 1940, declamando falas com um olhar cansado e a angústia dos tempos da Grande Depressão.

Os coadjuvantes ajudam a história a se manter firme quando o astro não está em cena e elevam ainda mais sua atuação quando dividem a tela. Lamorne Morris está ótimo como o repórter Robbie Robertson, parceiro de Reilly, mas é Karen Rodriguez, incrível no papel da secretária Janet, quem rouba a cena, agindo como uma espécie de Effie Perine (de O Falcão Maltês) para o Aranha. O mesmo vale para Li Jun Li como Cat Hardy, a versão femme fatale da Gata Negra, perfeita no papel, com a medida certa de ameaça e fragilidade.

Do lado dos vilões, é interessante o trabalho de adaptação de alguns clássicos do Homem-Aranha para o gênero noir/gângster. Jack Huston, Abraham Popoola e Andrew Lewis Caldwell vivem alguns deles, mas é este último, como Megawatt e suas falas teatrais, que ganha mais destaque, principalmente em suas lutas contra Reilly.

Ainda que a história de Reilly, Cat e o jogo de gato e rato entre eles e o vilão de Gleeson seja empolgante, a trama dos antagonistas não é tão inspirada. A tentativa de justificar os poderes com uma situação do passado de Ben não cria os laços fortes que deveria, falhando em fazer o herói enxergar esses “monstros” como parte de algo que deveria afetá-lo muito mais. Esse drama existencial vira apenas uma desculpa para a missão final que, tirando Megawatt, também não empolga, mesmo que as cenas de ação sejam ótimas. A luta do Aranha com um grupo em um bar é fantástica, mas aí também entra o “fator Nicolas Cage”.

Spider-Noir é uma série-graphic novel perfeita para quem é fã do Homem-Aranha. Uma visão diferente do que estamos acostumados a ver em outras produções, mergulhando em um dos gêneros mais interessantes do cinema e com um astro que torna tudo ainda mais fantástico e frenético. Um alívio em meio a tantas outras produções que se esforçam minimamente para entregar apenas um fan service ou outro ou, quando quer ser adulta, uma escatologia barata.

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