Brasil lidera exportação de tabaco, mas pode ficar para trás na nova era sem fumaça
Produtores defendem regulação enquanto mercado global migra para alternativas ao cigarro e Brasil mantém restrições

O Brasil é atualmente o maior exportador mundial de tabaco e o segundo maior produtor global. No Sul do país, mais de 120 mil famílias de pequenos produtores sustentam uma cadeia produtiva importante para economias locais. Agora, uma mudança no mercado internacional pode redesenhar esse cenário: o avanço de produtos sem fumaça, como cigarros eletrônicos e bolsas de nicotina.
Procurada pela reportagem, a Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) afirmou que acompanha a transformação do mercado global e defende a regulamentação de novos produtos no país. O presidente da entidade, Marcilio Drescher, afirmou que a ausência de regras claras gera incertezas para o setor.
“O setor representativo dos produtores sempre defendeu que, no Brasil, esses novos produtos também deveriam ser regulamentados, para que se saiba quem pode consumir e quais devem ser as regras. Hoje, consomem-se muitos produtos sem essa definição, o que deixa de gerar arrecadação e pode abrir espaço para itens que não são de interesse do nosso setor produtivo”, disse.
Drescher também faz distinção entre os tipos de produtos. Segundo ele, a Afubra defende a liberação de dispositivos que utilizam tabaco, como os produtos aquecidos, mas demonstra cautela em relação aos itens à base de nicotina líquida.
“Usar o produto produzido pelos fumicultores brasileiros é fundamental. Já a nicotina líquida, não sabemos se é extraída do tabaco ou de outras plantas”, afirmou.
Segundo o Relatório Institucional 2026 do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco), o Brasil lidera as exportações mundiais do setor há 32 anos consecutivos. Em 2025, o país exportou mais de 500 mil toneladas de tabaco e superou US$3,39 bilhões em receita cambial.
Mercado global já migra para alternativas ao cigarro
Os resultados do primeiro trimestre de 2026 da Philip Morris International (PMI) reforçam a mudança de mercado. Segundo a companhia, 43% da receita líquida total já vem de produtos sem fumaça, segmento que registrou crescimento orgânico de 15,8% no período.
Entre os produtos citados pela empresa estão os sachês de nicotina, que vêm crescendo em mercados como Estados Unidos e Europa. Marco Hannappel, presidente da PMI para a América Latina, afirmou que a nicotina usada nesses itens é natural e extraída do tabaco produzido no Brasil.
Na avaliação do executivo, o país poderia ampliar sua participação global ao deixar de ser apenas fornecedor de matéria-prima e avançar também para produtos industrializados de maior valor agregado.
Questionado, o presidente da Afubra afirmou que há potencial de participação dos produtores brasileiros em um eventual mercado regulado, mas destacou a falta de informações oficiais.
“Precisamos de uma definição clara, com regras e informações oficiais. Entendemos que a produção de nicotina poderia, sim, ser realizada pelas famílias aqui no Brasil. Mas, no momento, isso ainda é uma incógnita”, afirmou.
Brasil pode virar polo industrial?
Em abril, a Philip Morris International realizou o Technovation, em Washington DC, evento para divulgar e discutir os últimos avanços no setor. Durante o evento, Hannappel afirmou que o Brasil reúne condições para se tornar um centro de produção e desenvolvimento de novas tecnologias do setor.
“O que aconteceria se o Brasil se tornasse o centro do desenvolvimento destes produtos em todo o mundo?”, questionou.
Segundo ele, estruturas já instaladas no país, como a unidade de Santa Cruz do Sul (RS), poderiam ser adaptadas para atender mercados internacionais.
O executivo citou como exemplo a fábrica da companhia em Bolonha, na Itália, que exporta para dezenas de países. Na Itália, o setor integra mais de 8.000 pequenas e médias empresas na sua cadeia de suprimentos “O Brasil tem, em termos de cadeia de valor, todos os ingredientes para ser ainda maior do que a Itália”, afirmou.
Brasil mantém restrição a cigarros eletrônicos e bolsas de nicotina
Enquanto vários países adotaram regras específicas para cigarros eletrônicos e outros produtos alternativos, o Brasil mantém restrições definidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Hannappel criticou o cenário atual e afirmou que a ausência de regulamentação fortalece o mercado ilegal. “Qual tipo de Brasil o Brasil quer ter? Quer ser como Itália, EUA, Alemanha, Japão, Reino Unido e Suécia ou como Venezuela e Cuba?”

Segundo o relatório “Adult smoking habits in the UK: 2024” do Office for National Statistics (ONS), a prevalência do tabagismo no Reino Unido atingiu o seu mínimo histórico de 10,6% em 2024, uma queda significativa face aos 20,2% registados em 2011.
Refletindo esta mudança de mercado, o Comunicado de Resultados da PMI para o primeiro trimestre de 2026 reportou uma queda de 5,1% no volume de cigarros combustíveis da companhia, enquanto os produtos sem fumaça já representam 43% da sua receita líquida total.
Globalmente, a estimativa é que o volume da indústria de cigarros tradicionais continue a diminuir entre 2% e 3% ao ano (excluindo China e EUA), intensificando a transição para alternativas de risco reduzido.
Com a queda gradual do consumo de cigarros tradicionais em diversos mercados, cresce a disputa por segmentos ligados a alternativas sem fumaça e produtos de maior valor agregado. Para o Brasil, o debate envolve agricultura, indústria, arrecadação, saúde pública e regulação.
A decisão dos próximos anos pode definir se o país seguirá concentrado na exportação de matéria-prima ou buscará espaço em uma nova cadeia internacional.



