Mundo

Crise em Ormuz acelera busca por outras rotas no Golfo

Países árabes no Golfo Pérsico avançam com planos de construção de oleodutos para proteger suas exportações de petróleo

Há quatro décadas, o Estreito de Ormuz revelou sua extrema vulnerabilidade para o mercado global de petróleo. Durante a Guerra Irã-Iraque, entre 1980 e 1988, os dois lados atacaram repetidamente petroleiros no trecho marítimo, transformando uma das artérias mais vitais do transporte mundial de petróleo bruto num campo de batalha.

A Arábia Saudita reagiu construindo o Oleoduto Leste-Oeste, que atravessa a vasta península desértica até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Anos depois, os Emirados Árabes Unidos seguiram o exemplo com o Oleoduto Habshan–Fujairah, ligando o emirado de Abu Dhabi ao golfo de Omã.

A fragilidade de Ormuz voltou à cena no fim de fevereiro, com a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Teerã cumpriu a antiga promessa de fechar o estreito caso fosse atacado. A medida deixou centenas de navios-tanque de petróleo e gás encalhados, interrompendo cerca de um quinto do fornecimento mundial de energia.

Assim, as atenções se voltam para a redução de riscos, com o objetivo de evitar que a estreita via marítima seja usada novamente como uma arma.

O mercado de energia se voltou para outros produtores para elevar a oferta, enquanto potências globais como China, Índia e União Europeia, ao lado de grupos ambientalistas, pressionam por acelerar os investimentos em energias renováveis.

Estados do Golfo correm para contornar Ormuz

Os líderes do Golfo Pérsico, por sua vez, avançam com planos que permitirão desviar uma parcela maior de seu petróleo bruto do estreito, ajudando a garantir as exportações no longo prazo.

No início deste mês, o jornal Financial Times noticiou que Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e outros países avaliam ativamente novos oleodutos paralelos às estruturas existentes, além da ampliação de terminais de exportação em litorais alternativos.

Landon Derentz, diretor sênior do Global Energy Center do think tank Atlantic Council, defendeu que o governo Trump apoie os novos projetos com financiamento dos Estados Unidos.

“Em vez de forçar os navios a passar por esse gargalo, os Estados Unidos e seus parceiros deveriam construir rapidamente alternativas a ele”, escreveu. “A Arábia Saudita já demonstrou que uma infraestrutura de desvio pode aliviar parte do estrangulamento. Esse modelo agora precisa ser ampliado de forma significativa”

O oleoduto saudita existente, com 1.200 quilômetros de extensão, já opera em sua capacidade máxima, de 7 milhões de barris por dia (bpd), acima dos 5 milhões antes da guerra, enquanto os Emirados canalizam outros 1,8 milhão de bpd para o porto de Fujairah.

Dobrar a capacidade de oleodutos

Embora essas medidas estejam oferecendo um colchão de proteção aos mercados globais de petróleo, a dimensão do desafio é evidente para Robin Mills, CEO da Qamar Energy, consultoria sediada em Dubai especializada em estratégia energética e geopolítica do Oriente Médio.

“Antes da guerra, cerca de 15 milhões de barris por dia de petróleo bruto passavam pelo estreito. Seria preciso dobrar [a capacidade atual dos oleodutos] para escoar todo o volume de exportações”, observa Mills.

Financial Times citou autoridades e especialistas do setor afirmando que, embora novos oleodutos sejam caros, demorados e, às vezes, politicamente complexos, eles podem ser a única forma de os países do Golfo reduzirem sua exposição a futuras interrupções.

Muitos desses planos de rotas alternativas estão em discussão há anos. Mas aqueles que envolvem múltiplos países ficaram paralisados por causa da distância, dos custos e de rivalidades regionais.

Mostrar mais

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo