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Ifap: Curso valoriza saberes das louceiras do Maruanum

Valorizar os saberes tradicionais das comunidades quilombolas do distrito do Maruanum, no município de Macapá. Esse foi o objetivo do curso de extensão promovido pelo Instituto Federal do Amapá (Ifap), entre 7 de fevereiro e 11 de abril deste ano, na Escola Estadual Quilombola Raimundo Pereira, localizada na comunidade do Carmo do Maruanum. Entre as instrutoras do curso estavam as próprias ceramistas locais, conhecidas como louceiras do Maruanum.

Coordenado pela professora Célia Souza da Costa, do Campus Porto Grande, o curso teve financiamento do Programa Escola Nacional Nego Bispo de Saberes Tradicionais, do Ministério da Educação (MEC) por meio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi), lançado em julho de 2025, em parceria com o Instituto Federal da Bahia (IFBA), com a proposta de integrar conhecimentos afro-brasileiros, indígenas e quilombolas à formação de futuros professores.

No início de dezembro de 2025, o MEC divulgou os 100 cursos de extensão selecionados para receber apoio financeiro, com repasses de até R$ 41,6 mil por iniciativa, voltados à formação de estudantes de licenciatura e da educação profissional e tecnológica.

O projeto do Ifap, intitulado “Criar-Saber-Fazer das Louças do Maruanum como Patrimônio Imaterial Cultural Quilombola do Amapá”, obteve a décima maior pontuação entre os 100 selecionados no Edital IFBA  41/2025. A proposta é reconhecer a produção artesanal de cerâmica como expressão de identidade, memória, saberes ancestrais e resistência cultural afro-amazônica.

A coordenadora explica que a proposta foi feita por ela em parceria com o Centro de Pesquisa sobre a Louça do Maruanum, Mulherismos, Decolonialidade e Relações Étnico- Raciais (Cemadere). As 25 vagas do curso foram disponibilizadas via chamada pública para acadêmicos de licenciaturas e professores, sendo a equipe executora totalmente formada por membros das comunidades do Maruanum.

“A iniciativa propõe aproximar estudantes de licenciatura e professores dos saberes das comunidades tradicionais por meio de uma formação de 60 horas que combina aulas teóricas, oficinas práticas e atividades de registro cultural”, explicou a professora Célia Souza da Costa.

De acordo com a coordenadora, “as práticas educativas voltadas ao patrimônio cultural estimulam o sentimento de pertencimento e identidade nas comunidades, além de promover uma verdadeira ecologia de saberes, na qual diferentes formas de conhecimento dialogam”.

Um dos pilares do curso é a educação patrimonial, entendida como estratégia para fortalecer a proteção e a valorização dos bens culturais. A metodologia foi baseada no círculo de cultura de Paulo Freire, com aulas dialogadas, rodas de conversa com mestras ceramistas e oficinas práticas de modelagem.

“Mais do que ensinar técnicas de cerâmica, o projeto busca reconhecer o papel das mestras do Maruanum como guardiãs de um conhecimento ancestral. Cada peça produzida carrega histórias, gestos e memórias que revelam formas próprias de compreender o tempo, o território e a identidade quilombola”, destacou Célia Costa.

Além da coordenadora, compuseram a equipe a mestra ceramista Marciana Nonata Dias, a assistente da mestra Rosiane Dias da Costa e os colaboradores Crislane da Costa Borges e Josenir Ferreira da Costa.

Louceiras do Maruanum

Localizado às margens do rio Maruanum, afluente do rio Matapi, o distrito de Maruanum abriga comunidades que mantêm viva uma prática artesanal ceramista transmitida principalmente entre mulheres.

O processo de produção das louças do Maruanum envolve muito mais que técnica artesanal. A atividade está ligada a crenças, rituais e relações espirituais com a natureza. Antes da retirada da argila, por exemplo, as ceramistas seguem práticas tradicionais que incluem pedir licença à Mãe do Barro, entidade considerada guardiã do barreiro, o local sagrado de onde se extrai a matéria-prima.

A produção segue várias etapas: coleta do barro, limpeza e preparo com cinzas de caripé, modelagem das peças, secagem, burnição, queima e impermeabilização com resina de jatobá. Cada fase carrega significados simbólicos que conectam o trabalho das artesãs ao território e à ancestralidade.

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