Mensagens de Vorcaro a Moraes mostram pedidos para conter PF e dúvida sobre deixar o Brasil antes da prisão
Polícia Federal aponta ministro do STF como destinatário de textos enviados pelo dono do Banco Master; Vorcaro perguntou se deveria estar “fora” do país e pediu atuação junto às cúpulas da PF e da PGR

por Luis Eduardo
Mensagens encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, revelam uma sequência de contatos atribuídos pela Polícia Federal ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), nos dias que antecederam a primeira prisão do empresário, em novembro de 2025.
Os textos mostram Vorcaro buscando informações sobre o avanço da Operação Compliance Zero e fazendo pedidos para que Moraes atuasse junto ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.
O material ganhou repercussão nesta terça-feira (1º), depois que o conteúdo da investigação passou a ser divulgado por diferentes veículos. O ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF, também encaminhou à Procuradoria-Geral da República pedido de esclarecimentos sobre as referências feitas a Gonet e Andrei nas mensagens.
Um cuidado é fundamental: a investigação conseguiu recuperar principalmente os textos produzidos e enviados por Vorcaro. Segundo a PF, o banqueiro escrevia no bloco de notas do celular, fazia uma captura da tela e enviava a imagem pelo WhatsApp em modo de visualização única. O mesmo sistema teria sido utilizado nas respostas do interlocutor. Por isso, o conteúdo das respostas atribuídas a Moraes não foi recuperado.
“Acha que segunda já tenho que estar fora?”
Um dos trechos mais sensíveis é de 15 de novembro de 2025, um sábado, dois dias antes da prisão de Vorcaro.
Ao tratar da possibilidade de medidas contra ele, o banqueiro pergunta ao interlocutor:
“Acha que segunda já tenho que estar fora?”
No dia seguinte, 16 de novembro, Vorcaro voltou a buscar informações:
“Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”
E, já em 17 de novembro, perguntou:
“Conseguiu ter notícia ou bloquear?”
Naquele mesmo dia, a Justiça Federal expediu a ordem de prisão preventiva. Vorcaro acabou preso pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, quando se preparava para embarcar em um jato particular. A viagem teria como destino Malta e, posteriormente, Dubai.
Para a Polícia Federal, o conjunto das mensagens indica que Vorcaro procurava saber antecipadamente sobre medidas da Operação Compliance Zero. A conclusão sobre eventual participação ou irregularidade praticada pelo interlocutor, entretanto, depende da análise completa do material e das manifestações das autoridades envolvidas.
Pedidos envolvendo Andrei Rodrigues e Paulo Gonet
Os contatos não começaram às vésperas da prisão.
Em 30 de outubro de 2025, Vorcaro relatou a Moraes que havia recebido informações informais e confidenciais de pessoas ligadas ao Banco Central sobre uma possível ofensiva da Polícia Federal e do Ministério Público.
Na mensagem, o banqueiro pediu que o ministro tratasse do assunto com Andrei Rodrigues e Paulo Gonet:
“É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem.”
Segundo a PF, “Andrei” seria o diretor-geral da Polícia Federal e “Paulo”, o procurador-geral da República. Foi justamente essa referência que levou André Mendonça a pedir esclarecimentos à PGR.
Vorcaro afirmava temer que uma medida policial ou judicial inviabilizasse as negociações que estavam em curso para tentar salvar ou vender o Banco Master.
Em mensagens posteriores, perguntou se alguma providência já havia sido deferida, se poderia ser bloqueada e buscou saber de onde partiria eventual investigação.
Vorcaro perguntava se medidas poderiam ser “seguradas”
Conforme o material divulgado, em 4 e 5 de novembro o banqueiro voltou ao assunto.
Vorcaro demonstrava preocupação com uma possível busca, quebra de sigilo ou outra medida contra o banco. Também relatou que seus advogados haviam procurado Paulo Gonet e chegou a consultar Moraes sobre a conveniência de apresentar uma petição aos órgãos responsáveis pela investigação.
Em uma das mensagens, Vorcaro afirmou que não faria nenhum movimento jurídico que o interlocutor não considerasse produtivo. A PF interpreta essa sequência como demonstração do grau de confiança existente no contato.
À medida que a data da operação se aproximava, o tom ficou ainda mais urgente.
Em 15 de novembro, Vorcaro perguntou:
“Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso.”
Já no dia 16, menos de 24 horas antes de ser preso, questionou se Andrei Rodrigues conseguiria retardar a adoção das medidas. O argumento apresentado por Vorcaro era de que o adiamento poderia impedir a quebra do Banco Master durante o feriado.
Segundo as reportagens que tiveram acesso ao material, Vorcaro pediu que Moraes tentasse sensibilizar o diretor-geral da PF para que as medidas fossem postergadas.
“Juntos em tudo”
Outro trecho chama atenção pelo nível de proximidade demonstrado pelo banqueiro.
Em 30 de outubro, depois de elogiar a atuação de Alexandre de Moraes e dizer acreditar que o ministro consolidaria sua posição como uma das pessoas mais importantes do país, Vorcaro encerrou uma das mensagens dizendo:
“Juntos em tudo. Muito obrigado por tudo.”
Os investigadores consideram o conteúdo relevante para avaliar a relação mantida entre o banqueiro e o ministro.
Isso, isoladamente, não comprova qualquer crime.
Respostas de Moraes não foram recuperadas
Este é um dos pontos mais importantes para a interpretação do caso.
As mensagens divulgadas permitem conhecer o que Vorcaro escreveu, mas não permitem reconstruir integralmente o que Alexandre de Moraes teria respondido.
De acordo com a Polícia Federal, os contatos ocorriam por meio de imagens de visualização única. Os textos enviados por Vorcaro puderam ser encontrados porque as versões originais permaneciam armazenadas no bloco de notas de seu aparelho.
As respostas do interlocutor, porém, não ficaram disponíveis da mesma maneira.
Assim, embora a PF tenha concluído que Moraes era o destinatário das mensagens, o material divulgado até agora não permite afirmar apenas com esses registros se o ministro atendeu aos pedidos de Vorcaro ou se efetivamente interferiu em alguma providência da Polícia Federal ou da PGR.
Mendonça aciona a PGR

Diante do conteúdo, André Mendonça solicitou manifestação da Procuradoria-Geral da República sobre as referências a Paulo Gonet e Andrei Rodrigues.
A Polícia Federal produziu relatório específico após determinação de Mendonça para identificar quem era o interlocutor das mensagens encontradas no celular de Vorcaro. A conclusão da corporação apontou Alexandre de Moraes como destinatário.
O caso abre agora uma nova frente dentro das investigações da Operação Compliance Zero.
A eventual existência de ilícito envolvendo autoridades ainda precisa ser analisada pelos órgãos competentes. Até o momento, as mensagens revelam os pedidos e questionamentos feitos por Vorcaro, mas a ausência do conteúdo das respostas impede concluir, somente a partir desses registros, qual foi a conduta adotada por Alexandre de Moraes diante das solicitações do banqueiro.





