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Terremotos revelam colapso da infraestrutura e desafiam resgates na Venezuela

Tremores ampliam caos no país e agravam cenário de crise estrutural e humanitária

Temia-se que milhares de venezuelanos tivessem morrido nesta quinta-feira (25) após dois fortes terremotos, incluindo o mais forte terremoto do país em mais de um século, causarem estragos em Caracas e arredores, deixando pessoas presas sob os escombros e provocando fortes tremores secundários.

Um terremoto de magnitude 7,2 atingiu uma área de aproximadamente 160 km a oeste de Caracas na noite de quarta-feira (24), seguido, menos de um minuto depois, por um tremor de magnitude 7,5, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos.

O desastre atingiu um país que já enfrenta anos de turbulência econômica, o que deixou grande parte de sua infraestrutura fragilizada, complicando os esforços de resgate e recuperação.

Em algumas áreas, equipes de emergência trabalhavam incansavelmente em meio aos escombros de prédios durante toda a noite e nesta quinta-feira. Em outras, os moradores reclamavam da falta de ajuda.

Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela e irmão da presidente interina Delcy Rodríguez, afirmou que pelo menos 235 pessoas tiveram suas mortes confirmadas e 200 estavam presas nos escombros e 1.520 pessoas ficaram feridas.

A área mais afetada, o Estado de La Guaira, perto de Caracas, “tornou-se uma zona de desastre”, disse a presidente Rodríguez, acrescentando que seu governo está trabalhando com empresas para mobilizar maquinário pesado a fim de acelerar os esforços de resgate.

“Ele está sob os escombros e não há máquinas para retirá-lo”, disse Yamileth Jimenez, moradora de La Guaira, sobre o filho de 19 anos que acredita estar preso sob escombros do prédio de apartamentos de sete andares onde moram. “Meu pai morreu há três dias e agora isso acontece. Só restamos eu e meu filho”, disse Jimenez.

Na capital costeira do Estado, também chamada La Guaira, havia poucos socorristas, e voluntários cavavam com as próprias mãos.

“Perdemos tudo. Não temos comida nem remédios. Conseguimos sair a tempo e só tivemos ferimentos leves… esperamos que a ajuda chegue logo”, disse Pedro Perez, de 64 anos, dono de uma oficina de estofados. Ele contou que perdeu sua casa e seu negócio e foi obrigado a ir para as ruas com a esposa e os filhos.

Outros moradores de La Guaira procuravam comida e água. A Reuters testemunhou saques em duas lojas da cidade.

O principal aeroporto de Caracas, em La Guaira, foi fechado nesta quinta-feira após sofrer danos. Imagens feitas por testemunhas durante os terremotos mostraram cenas de pânico com o desabamento de tetos.

Muitos venezuelanos estavam em casa quando os terremotos atingiram a região durante um feriado. Moradores fugiram de prédios que tremiam e correram para as ruas enquanto estruturas desabavam em Caracas e nas áreas costeiras próximas.

“Quando descemos as escadas, a cena era como um filme de terror”, disse Maria Alejandra, moradora de Caracas, que não revelou seu sobrenome. “Tivemos que escalar os escombros e tudo mais. O zelador do prédio com o bebê e todos os vizinhos descendo. Mas daquele prédio, eu só vi uma família sair”

Casas desabaram perto do epicentro do terremoto em Morón, uma pequena cidade litorânea no Estado de Carabobo, onde não havia água nem eletricidade. Três crianças estavam entre os pelo menos oito mortos na região, disse a prefeita municipal Emily Riera à Reuters.

35 mil desaparecidos

A partir de modelagem preditiva para estimar o número de mortos, o Serviço Geológico dos Estados Unidos afirmou que o total deve provavelmente chegar aos milhares, com uma probabilidade substancial de ultrapassar a marca de 10.000.

Site criado para rastrear pessoas desaparecidas e compartilhado por líderes da oposição do país, muitos dos quais de fora da Venezuela, listou mais de 35.000 pessoas como desaparecidas pouco depois das 13h30 (horário local). A Reuters não conseguiu verificar a veracidade de todas as informações.

O terremoto de magnitude 7,5 foi o mais forte da Venezuela desde 1900. O país fica na fronteira entre as placas tectônicas do Caribe e da América do Sul e sofreu terremotos devastadores, incluindo um que matou cerca de 30.000 pessoas em 1812.

Maria Romero, uma aposentada de 80 anos que mora no sul de Caracas, disse que a polícia a ajudou a sair de casa. “Este terremoto foi horrível, pior até do que o de 1967”, disse, referindo-se ao terremoto de magnitude 6,3 que, segundo o USGS, matou 240 pessoas.

Solidariedade internacional

Líderes de todo o espectro político expressaram solidariedade à Venezuela, uma mudança notável em relação à polarização internacional que cercou o país nos últimos anos.

Rodríguez disse que equipes de resgate internacionais devem chegar em breve e agradeceu aos líderes, incluindo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente russo Vladimir Putin.

Grupos de expatriados representando a diáspora venezuelana, que chega a milhões de pessoas após anos de migração em massa, começaram a organizar campanhas de arrecadação de ajuda no exterior, enquanto familiares se esforçavam para entrar em contato com seus parentes no país.

Rodríguez apelou à união na Venezuela, onde protestos antigovernamentais motivados por uma inflação anual superior a 500% tornaram-se mais frequentes desde que Trump ordenou a captura do presidente Nicolás Maduro em uma violenta operação policial em janeiro.

Trump disse que os EUA estão “prontos, dispostos e aptos a ajudar” e que os EUA “estariam presentes para nossos novos e grandes amigos”. Enquanto isso, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou que equipes de resgate estavam sendo mobilizadas e que o Pentágono deve enviar recursos para o aeroporto de Caracas, gravemente danificado.

Outras cidades e vilas próximas a Caracas afetadas pelo terremoto, incluindo El Junquito e La Guaira, permaneceram sem energia na manhã desta quinta-feira, aumentando os desafios.

O chefe de ajuda humanitária da ONU, Tom Fletcher, disse que a organização está coordenando o rápido envio de equipes internacionais de resgate, acrescentando que “um esforço coletivo massivo” será necessário em um país onde, mesmo antes do terremoto, 8 milhões de pessoas já precisavam de ajuda humanitária.

A missão de direitos humanos da ONU na Venezuela instou o governo a suspender restrições sobre algumas redes sociais, argumentando ser uma “questão de vida ou morte”. O acesso foi disponibilizado em algumas áreas do país onde os serviços de telefonia celular são instáveis.

No Hospital de Clínicas de Caracas, a equipe dobrou o número de funcionários no turno da noite para tratar os feridos, disse um trabalhador.

As aulas escolares foram canceladas pelo resto da semana. A bolsa de valores da cidade foi fechada e será utilizada para resgate e esforços.

A Cruz Vermelha venezuelana informou que sua sede sofreu danos críticos, mas enviou equipes de resgate para as áreas mais afetadas. A embaixada francesa também foi gravemente atingida.

Próximo ao epicentro, trabalhadores estavam reiniciando o Complexo Petroquímico Morón, o segundo maior em operação na Venezuela, segundo um chefe local dos bombeiros após uma avaliação dos danos.

Outras infraestruturas petrolíferas aparentemente não foram afetadas.

A Chevron, principal parceiro estrangeiro da estatal petrolífera venezuelana PDVSA, afirmou que todos os funcionários foram contabilizados e que as operações seguem em funcionamento. A empresa petrolífera britânica Shell, que está avaliando o desenvolvimento de campos de gás na Venezuela, afirmou que todos os seus funcionários saíram ilesos.

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