Como facções controlam estruturas de comando de dentro das prisões
Celulares, bilhetes e redes internas permitem que facções continuem coordenando crimes de dentro das cadeias

A apreensão de 534 celulares em presídios de 23 estados durante a 11ª fase da Operação Mute, na última semana, e a decisão dos Estados Unidos de classificar facções brasileiras como organizações terroristas estrangeiras reacenderam uma discussão antiga da segurança pública: como grupos criminosos continuam comandando crimes mesmo com seus líderes atrás das grades.
Para especialistas, o problema vai muito além da entrada de celulares nas unidades prisionais. Ao longo das últimas décadas, as cadeias brasileiras se transformaram em verdadeiros centros de comando do crime organizado.
“O presídio oferece ao líder criminoso duas coisas fundamentais: tempo ocioso e concentração de mão de obra. Quando o Estado falha em isolar a comunicação e fragmentar lideranças, os grupos conseguem se organizar e transformar a prisão em um hub centralizado de operações”, explica André Santos Pereira, delegado da Polícia Civil de São Paulo e especialista em Inteligência Policial e Segurança Pública.
Centros de comando
Segundo o delegado, a estrutura das facções dentro dos presídios se assemelha à de uma empresa. No topo, estão as lideranças responsáveis pelas diretrizes estratégicas da organização.
Abaixo delas, atuam gerentes regionais e chefes de alas ou pavilhões, encarregados de transmitir ordens e supervisionar atividades. A cadeia de comando funciona por meio de uma rede de prestação de contas.
Faccionados que atuam nas ruas informam aos responsáveis presos detalhes sobre movimentações financeiras, compra de armas, cobranças de dívidas e ações contra grupos rivais.
“A ordem flui verticalmente, mas a execução é descentralizada. Isso permite que a organização continue funcionando mesmo quando um dos elos da cadeia é preso ou neutralizado”, afirma Pereira.
Segundo ele, essa dinâmica ajuda a explicar por que algumas facções conseguem manter operações simultâneas em diferentes estados e até fora do país.
“A transformação em ‘centro de comando’ ocorre porque a prisão funciona como um hub centralizado: o líder está resguardado das ações de rua das polícias — blindado fisicamente — e usa a massa carcerária como rede de transmissão de ordens para o ambiente externo, capitalizando a vulnerabilidade do próprio sistema”, diz.
Para sustentar a estrutura de controle, as facções criaram redes próprias de cadastro com informações sobre cada integrante, independentemente do estado onde esteja preso. Dessa forma, punições, promoções e determinações internas podem ser replicadas rapidamente em diferentes regiões do país.
“Se um integrante comete uma falta grave no sistema de São Paulo, a ordem de punição ou exclusão é replicada instantaneamente para as frentes daquela facção no Norte ou Nordeste”, afirma.
De acordo com o delegado, a quebra da hierarquia costuma ser punida com a exclusão da organização criminosa ou até mesmo com a morte. “Perder o vínculo com a facção significa também perder a proteção dentro do sistema prisional”, completa.
Celulares, bilhetes e drones
Apesar do avanço das tecnologias de bloqueio e fiscalização, como bloqueadores de sinal, scanners corporais, revistas eletrônicas e operações periódicas de varredura nas celas, os celulares continuam sendo a principal ferramenta utilizada pelas organizações criminosas dentro dos presídios.
Com acesso à internet, aplicativos de mensagens criptografadas e serviços bancários digitais, os líderes conseguem coordenar ações em tempo real, realizar chamadas de vídeo, movimentar recursos financeiros e acompanhar operações criminosas à distância.
Segundo Pereira, os aparelhos se tornaram instrumentos estratégicos para a manutenção do poder das facções.
“Com um celular, o líder preso consegue transmitir ordens, administrar recursos financeiros, monitorar operações e manter contato com integrantes espalhados por diferentes regiões do país”, afirma.



