Thunderbolts* busca por “Novos Vingadores” com bom (e tímido) meta-filme
Marvel entende que seu auge passou e escolhe a sátira - mas isso é o bastante?

Dizer que um filme como Thunderbolts* seria melhor recebido em outra era, talvez no auge da popularidade do Marvel Studios como linha de produção de blockbusters, é perder de vista talvez o ponto mais importante do longa. Thunderbolts*, afinal, provavelmente nem existiria nessa outra era. E se existisse, certamente não teria a proposta que tem.
Como idealizado pela dupla de roteiristas Eric Pearson (Thor: Ragnarok) e Joanna Calo (O Urso), o filme é produto de um MCU consciente do próprio desgaste – um desgaste diante do qual o todo-poderoso Kevin Feige parece ter aberto a porteira para a metalinguagem, entendendo que a única saída para a atual crise do filme de super-herói é fazer filmes de super-herói que comentam sobre a crise do filme de super-herói.

Entra em cena Valentina Allegra de Fontaine (Julia Louis-Dreyfus), diretora da CIA que rege uma miríade de operações clandestinas e experimentos humanos por baixo dos panos, buscando manufaturar um novo herói, invencível e (importante) facilmente vendável, para preencher o vácuo deixado pelos Vingadores… com a diferença de que ele seguiria todas as suas ordens, é claro. Para escapar de uma investigação que ameaça a sua base de poder em Washington, no entanto, ela precisa aparar as pontas soltas de suas operações corruptas, e isso inclui operativos secretos como Yelena Belova (Florence Pugh), John Walker (Wyatt Russell), Fantasma (Hannah John-Kamen) e Treinadora (Olga Kurylenko), que têm trabalhado para ela desde suas últimas aparições no MCU.

Esse dilema se desenvolve, durante o primeiro ato do filme, para desaguar em um confronto simbólico com o Sentinela de Lewis Pullman. São os heróis rejeitados de um passado recente – e bem pouco glorioso – da marca Marvel contra o herói fabricado por uma figura antagonística na tentativa de recuperar um passado supostamente dourado, hoje relegado a exibições de museu. Tudo encenado no prédio dilapidado que um dia simbolizou o auge da narrativa de heroísmo do Marvel Studios.

Assim, em tom de farsa até um pouco sofisticado, Thunderbolts* nos apresenta sua tese central: um herói não se faz, um herói acontece. E, para o seu crédito, o roteiro de Pearson e Calo faz um trabalho decente em nos convencer que esses heróis, um dia coadjuvantes desprezados de filmes e séries que pouca gente viu e ainda menos gente gostou, podem acontecer.

Ajuda que alguns deles, como Yelena e Bucky Barnes (Sebastian Stan), já venham com certa substância. A irmã da Viúva Negra não é a figura central do filme à toa – seja pela força da performance de Florence Pugh, que se mostrou irrepreensivelmente carismática mesmo em produções que não a mereciam, ou pela integridade da narrativa de perda e deriva da personagem, Yelena se tornou uma das poucas favoritas recentes do fandom do MCU. Thunderbolts* aposta alto nela como âncora narrativa, e é a partir dela que traça as linhas que unem o restante do time. Mas nenhum outro dos anti-heróis escapa de certa insipidez ou descartabilidade, embora o roteiro se esforce para fazer as interações entre eles ganharem alguma faísca cômica menos óbvia ou pueril do que a vista nos títulos mais recentes da saga.

Já aí vão ficando mais claros os motivos do desgaste do qual Thunderbolts* quer escapar. O diretor Jake Schreier (Treta, Cidades de Papel), por exemplo, se mostra só mais uma das infindáveis mãos-de-obra contratadas de Feige, construindo um filme sem nenhum impulso estético identificável, além da vontade de apontar a decadência de certos cenários simbólicos do MCU.

A fotografia de Andrew Droz Palermo (O Cavaleiro Verde) mergulha sem restrições nos cinzas modorrentos que definem a franquia – fora de As Marvels e Doutor Estranho – já há muitos anos; os montadores Angela M. Catanzaro (O Predador: A Caçada) e Harry Yoon (Shang-Chi) ficam no piloto automático em cenas de ação que chegam e se vão sem impacto nenhum; e a trilha de Son Lux (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo) se desdobra para evocar algo de soturno que inexiste na tela.