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Crise energética ronda a Europa e já dá primeiros sinais

Restrições no abastecimento de aviões na Itália, subsídios na Grécia e caminhões-tanque na França: com a alta dos combustíveis decorrente da guerra no Irã, é hora de a UE incentivar energia limpa, alertam especialista

A guerra de Estados Unidos e Israel no Irã já gera impactos diretos no cotidiano dos europeus. Com combustíveis mais caros, escassez de energia e riscos de abastecimento, a União Europeia (UE) e governos nacionais estão adotando medidas de emergência que vão de restrições para abastecimento a apelos para economizar energia.

Os sinais de pressão já começam a aparecer em vários países do bloco. Na Grécia, o governo anunciou um subsídio temporário para combustíveis, direcionado a famílias de baixa e média renda. Na Itália, ao menos quatro aeroportos do Norte do país, incluindo o de Milão, impuseram limites ao fornecimento de querosene de aviação.

Já o governo francês enviou centenas de caminhões-tanque para normalizar o estoque nos postos de combustíveis, que registraram problemas na distribuição após a corrida da população para abastecer os automóveis no país na véspera do feriado de Páscoa.

Diante dos desdobramentos do conflito no Oriente Médio, que já entrou no segundo mês com bloqueios no Estreito de Ormuz e ataques à infraestrutura energética por parte dos envolvidos, a Comissão Europeia fez, na semana passada, um apelo para que os mais de 400 milhões de cidadãos voem e dirijam menos, trabalhem mais em home office e se esforcem para economizar energia.

Mas, segundo os especialistas consultados pela DW, a UE, como um todo, precisa fazer mais para se preparar para a crise que, segundo o chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, deverá ter um impacto tão grande quanto a pandemia da Covid-19 ou o início da Guerra na Ucrânia.

“Ainda não nos demos conta da magnitude dessa crise”, diz à DW Ana Maria Jaller-Makarewicz, analista-chefe de energia para a Europa do Instituto de Economia Energética e Análise Financeira de Londres.

Segundo ela, a Europa deve começar a sentir a diferença até o final do mês. “Algumas cargas [de gás natural liquefeito] já estavam sendo redirecionadas para a Ásia”, acrescentou ela, referindo-se à competição entre a Europa e a Ásia pelos estoques cada vez mais escassos do insumo.

Corrida pelo gás natural 

Preços de petróleo e gás dispararam em cerca de 70% desde que os EUA e Israel lançaram os primeiros ataques aéreos contra o Irã, no final de fevereiro. Em retaliação, o Irã lançou uma enxurrada de mísseis e drones contra os países do Golfo, ricos em recursos energéticos, e bloqueou o Estreito de Ormuz, hidrovia por onde passam 20% do petróleo do mundo.

Segundo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, só os primeiros dez dias do conflito custaram aos contribuintes europeus cerca de 3 bilhões de euros (R$ 17,9 bilhões) adicionais em importações de combustíveis fósseis.

De acordo com um relatório recente do think tank Bruegel, se o preço do gás dobrar, isso acrescentará cerca de 100 bilhões de euros aos custos de importação do insumo pela Europa nos próximos 12 meses.

Mas o aumento dos preços não é a única preocupação. Com o prolongamento da guerra, começam a surgir receios de uma escassez de abastecimento em toda a Europa.

Inicialmente, as autoridades europeias ficaram relativamente tranquilas, já que o continente era menos dependente das importações de energia que passam pelo Estreito de Ormuz – apenas 8% do gás natural liquefeito (GNL) do bloco vinha do Catar antes da guerra. Os países asiáticos, por outro lado, dependiam da rota marítima para quase um terço do consumo total.

No entanto, à medida que o conflito se prolonga e o volume de suprimentos se reduz, crescem as preocupações de que até mesmo a menor oscilação possa provocar escassez, especialmente se países asiáticos superarem os europeus na disputa por esses suprimentos energéticos.

Nos últimos anos, a UE diversificou o seu abastecimento energético com o objetivo de reduzir a dependência da energia russa, substituindo por mais importações dos Estados Unidos e da Noruega. Atualmente, os EUA são o maior exportador de gás para o bloco europeu. No entanto, à medida que essa competição por recursos limitados se intensifica, as nações asiáticas também entram na fila para adquirir parte do GNL americano.

No relatório, o Bruegel afirma que, desde o início da guerra no Irã, vários carregamentos de gás natural já foram redirecionados da Europa para a Ásia. “O abastecimento de gás da UE é ainda mais limitado pela eliminação gradual do GNL russo, prevista para 2027”, acrescentou o think thank.

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