Caso Master: PF suspeita de vazamento em operação contra aliado de Alcolumbre
Jocildo Lemos não estava em casa quando a PF chegou. Procurador ligou para esposa de principal alvo 18 minutos antes da operação

A Polícia Federal (PF) suspeita que houve vazamento da operação que mirou o ex-presidente da Previdência do Amapá, Jocildo Silva Lemos, indicado ao cargo pelo senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Jocildo foi um dos alvos da operação da PF, deflagrada em 6 de fevereiro, que apura a destinação de R$ 400 milhões em Letras Financeiras emitidas pelo Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, preso em Brasília.
Os investigadores passaram a suspeitar de vazamento por alguns motivos, especialmente por causa de um telefonema que a esposa de Jocildo recebeu do procurador jurídico da Previdência do Amapá 18 minutos antes de os agentes baterem à porta da residência com um mandado de busca e apreensão.
Investigadores consultados pela coluna relatam que, quando chegaram à casa do principal alvo da operação, por volta das 6h, Jocildo não estava no local.
Apreensão do celular
Familiares informaram aos agentes que ele havia acabado de sair para fazer exercícios físicos, o que impediu a apreensão imediata do telefone celular de Jocildo.
Quando Jocildo retornou à residência, a PF constatou que o aparelho entregue pelo aliado de Alcolumbre havia sido recentemente habilitado para uso e não tinha mensagens, fotografias nem registros de contatos, o que chamou a atenção dos investigadores.
Ao ser questionado, Jocildo afirmou que havia entregue o celular que usa no dia a dia a um amigo, identificado pela PF como Mauro Júnior, procurador jurídico da Amapá Previdência.
Segundo Jocildo, o aparelho foi levado até Mauro para o conserto de uma “rachadura na traseira do dispositivo”. Explicação que não convenceu os investigadores. Após contato, Mauro foi até a casa do então presidente da Previdência para entregar o aparelho alvo da diligência.
A PF também aponta outra evidência que reforça a suspeita de vazamento. Às 5h42 do dia da operação, pouco antes da chegada dos agentes, Mauro ligou para a esposa de Jocildo.
Para os investigadores, esse conjunto de circunstâncias indica fortes indícios de que Jocildo tinha conhecimento prévio da operação, o que poderia explicar o afastamento do celular que utilizava no cotidiano. Ele pediu demissão do cargo em 11 de fevereiro.
A PF apreendeu o celular da esposa de Jocildo e trabalha agora para realizar a perícia nos aparelhos recolhidos.
Investigação
Os investigadores acreditam que Jocildo teve papel fundamental para que houvesse a destinação de R$ 400 milhões em Letras Financeiras ao Master, tendo em vista que ele atuava como coordenador do comitê de investimentos e exerceu papel central na condução das três reuniões realizadas em julho de 2024 – nos dias 12, 19 e 30 – que trataram da aplicação de recursos no banco.
O dirigente influenciado diretamente as votações que autorizaram os aportes, mesmo diante de alertas técnicos sobre risco e concentração dos recursos em uma única instituição financeira.
A apuração aponta ainda que as decisões avançaram sem a exigência prévia de análises mais detalhadas sobre a situação do banco de Vorcaro – prática considerada fora do padrão de cautela esperado na gestão de um fundo previdenciário.
Além disso, de acordo com o relatório, a Caixa Econômica teria se recusado a adquirir os mesmos ativos por considerá-los de risco elevado. Para os investigadores, esse elemento indica que sinais de alerta podem ter sido ignorados pela cúpula da Previdência do Amapá.
A PF também registrou que Jocildo participou das deliberações que aprovaram as aplicações e assinou autorizações que permitiram a transferência efetiva dos recursos, conectando as decisões do comitê à liberação dos valores para o Banco Master.
Além de Jocildo, foram alvos de mandados de busca e apreensão José Milton Afonso Gonçalves – apontado como mentor intelectual e articulador das operações no comitê – e a Jackson Rubens de Oliveira.



