Neutralidade e mediação: como Brasil atuaria em eventual terceira guerra mundial
Tradicionalmente, país mantém posição política externa de conciliador e aposta em soluções diplomáticas em caso de conflitos

A escalada do conflito entre os Estados Unidos e Irã desencadeou especulações sobre uma eventual terceira guerra mundial, na qual também estariam envolvidas nações como Rússia e China. Esse cenário, apesar de hipotético, gerou questionamentos sobre a possível posição diplomática do Brasil, que tem ligações com os dois lados envolvidos. Contudo, o país dificilmente adotaria um alinhamento militar.
Ainda assim, o cenário de guerra abre uma possibilidade para que o Brasil tenha protagonismo diplomático, pois, tradicionalmente, o país mantém uma posição política externa de conciliador e aposta em soluções diplomáticas, como um grande defensor do multilateralismo.
No contexto da guerra no Oriente Médio, a relação do Brasil com a parte ocidental envolvida — como Estados Unidos e países da Europa – é marcada por laços históricos e forte cooperação comercial, como demonstrou o recente acordo firmado pelo Mercosul com a União Europeia.
E, em outros eixos, é possível destacar a participação brasileira no grupo Brics, o relacionamento estratégico com a China, a cooperação política com a Rússia e a relação com o Irã, um grande fornecedor de fertilizantes ao agronegócio nacional.
O lado do Brasil
Apesar da ligação do Brasil com as duas esferas geopolíticas envolvidas no confronto, isso não significa um pacto de defesa e não obriga um alinhamento automático, como explica o coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), João Alfredo Lopes Nyegray.
O especialista entende que a situação cria um dilema de narrativa e de prioridade.
“Na prática, essa posição coloca o Brasil num espaço de atuação que é mais econômico e diplomático do que de segurança: proteger interesses materiais – energia, fertilizantes, logística, inflação – e evitar que o país vire parte do conflito por retórica ou por escolhas simbólicas”, comenta.
No sábado (28), quando a escalada no Oriente Médio se intensificou, o Ministério das Relações Exteriores divulgou dois comunicados para condenar o ocorrido e expressar “grave preocupação”.
No primeiro, o governo brasileiro condenou a ação dos americanos e israelenses contra o Irã. No segundo, solidarizou-se com as nações atingidas por bombardeios iranianos.
Na visão de Nyegray, esse posicionamento preserva a tradição de não alinhamento militar do Brasil e reforça uma imagem de previsibilidade. “Mas também limita a capacidade de ‘influenciar’ o curso da guerra, porque influência real costuma vir de capacidade coercitiva, controle de logística/financiamento ou papel indispensável de mediação aceito por ambos, o que hoje é difícil”, opina.



