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Como a crise no Peru pode afetar o Brasil

A ‘peruanização’ da crise de governabilidade deixa de ser um cenário hipotético e passa a ser um risco real para toda a América Latina

Um presidente encapuzado entra às pressas num restaurante chino‑peruano em Lima, tentando não ser reconhecido. A câmera de segurança registra a cena: é José Jerí, chefe de Estado, chegando a um encontro secreto com um empresário chinês interessado em adiar um grande projeto hidrelétrico, longe de qualquer registro oficial.

À primeira vista, parece uma história distante, ainda que suspeita. Mas essa imagem ajuda a explicar por que o Peru se tornou hoje um risco direto para a segurança, a economia e a qualidade da democracia no Brasil e em toda a América Latina.

Jerí nunca foi pensado para o papel de protagonista. Chegou ao poder por uma carambola institucional, depois do autogolpe frustrado de Pedro Castillo e da queda de Dina Boluarte, que já governava sem vice‑presidentes naquele momento, e com o presidente do Congresso empurrado para a chefia de Estado.

Aos 38 anos, com trajetória discreta, assumiu como presidente “de transição” até as eleições de abril de 2026, em meio a um ambiente de profunda desconfiança nas instituições. A promessa de estabilidade mínima se desfez rapidamente.

O contexto interno já era explosivo. Em 2025, o Peru registrou 2.213 homicídios, o pior número desde 2017, mais de cinco assassinatos por dia.

A aposta em mais “mão dura” não alterou esse quadro, e um Estado frágil é terreno fértil para o avanço de organizações criminosas que operam também do lado brasileiro da fronteira amazônica.

Na frente externa, o governo rompe relações com o México depois que aquele país concede asilo à ex‑primeira‑ministra Betssy Chávez; em resposta, o México impõe vistos para peruanos e a crise escala a ponto de exigir a mediação do Brasil.

O Itamaraty é chamado a atuar como bombeiro regional, gastando capital diplomático para conter um incêndio que espalha faíscas por toda a região andino‑amazônica.

‘Chifagate’

O “Chifagate” acelera a implosão. Um presidente encapuzado, um chifa de bairro (restaurante popular que serve a culinária de fusão sino-peruana), um empresário interessado em contratos públicos bilionários: a cena condensa a confusão entre interesses privados e decisões de Estado.

A primeira justificativa – uma simples reunião de amigos – cai quando se revela que o tema era um projeto hidrelétrico estratégico.

A segunda – a necessidade de um tradutor – é desmentida pelo proprio currículo do empresário, Ji Wu Xiaodong, tradutor juramentado com 20 anos de atuação.

Cada explicação furada aprofunda a sensação de que o presidente age como alguém com algo grave a esconder.

A imprensa abre, então, a caixa‑preta do poder. Surgem denúncias de contratos suspeitos concedidos a jovens mulheres que visitavam o palácio à noite, além de encontros com figuras ligadas à extração ilegal de madeira, incluindo um visitante em prisão domiciliar.

A popularidade de Jerí, que começou em torno de 58%, desaba para cerca de 25%, abrindo caminho para a reação do mesmo Congresso que o havia levado ao cargo.

Em poucas semanas, a Procuradoria abre investigação, a moção de vacância é apresentada, e o presidente “por acidente” se torna mais um da longa lista de chefes de Estado descartados.

Por que tudo isso é tão ruim para o Brasil e para a América Latina?

Primeiro, por causa da segurança e do território. Um Estado central fraco, com Executivo efêmero e Legislativo em guerra permanente, perde capacidade de controlar fronteiras e enfrentar redes criminosas transnacionais.

Na prática, isso significa mais espaço para narcotráfico, garimpo ilegal, desmatamento e tráfico de pessoas na fronteira amazônica Peru–Brasil, justamente numa região em que ambos os países deveriam cooperar para proteger a floresta.

O que acontece em Lima não fica em Lima: se traduz em violência, degradação ambiental e pressão sobre forças de segurança brasileiras.

Segundo, pela dimensão econômica e geoestratégica. O Peru é peça chave em projetos de interesse direto para o Brasil e para a região, como corredores bioceânicos ligando Atlântico e Pacífico, cadeias de valor em mineração e energia, e articulações em foros como CELAC e OEA.

Quando o país entra em ciclo de presidentes descartáveis e lideranças controversas, esses projetos são paralisados ou capturados por agendas de curto prazo, abrindo espaço para que atores externos usem o vácuo de poder a seu favor.

A América Latina, que já sofre com baixa integração, perde mais uma oportunidade de construir uma inserção conjunta e autônoma no cenário global.

Terceiro, e talvez mais importante, pelo efeito institucional e simbólico. A sucessão de presidentes fragilizados, culminando no par Jerí–Balcázar, reforça a mensagem de que a democracia latino‑americana seria, por natureza, incapaz de produzir governos estáveis e lideranças comprometidas com padrões mínimos de integridade.

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