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Governo Lula enfrenta teste diplomático em meio à rivalidade China-EUA

Declarações de Xi e iniciativa de Trump aumentam pressão sobre o Brasil, que precisa equilibrar relações sem perder autonomia

A tentativa do Brasil de manter boas relações com China e Estados Unidos ficou ainda mais delicada nas últimas semanas. Declarações do presidente Xi Jinping, com recados sobre o papel do governo Lula na ONU e críticas indiretas à iniciativa diplomática de Donald Trump de criar um “Conselho de Paz” na Faixa de Gaza, acenderam um alerta em Brasília sobre o risco de atritos e cobranças em um cenário internacional cada vez mais polarizado.

A sinalização do líder chinês ocorre em um momento em que o governo brasileiro tenta preservar espaço de manobra e evitar que a disputa entre as duas potências se transforme em pressão direta sobre decisões do país.

Para o professor João Alfredo Lopes Nyegray, doutor em internacionalização e professor de geopolítica e negócios internacionais da PUC-PR, o Brasil só consegue sustentar relações estratégicas com os dois polos se adotar pragmatismo e foco em interesses concretos.

“Na prática, o Brasil só consegue sustentar uma parceria estratégica simultânea com China e Estados Unidos se operar com uma lógica de ‘autonomia por diversificação’, e não de neutralidade retórica”, analisa.

Na avaliação do especialista, a estratégia não significa “ficar em cima do muro”, mas negociar com os dois lados sem sinalizar alinhamento automático ou transformar cada movimento em gesto ideológico.

“O truque não é ‘ser amigo de todos’, é desenhar uma política externa que transforme a rivalidade em margem de manobra: negociar com um lado sem sinalizar alinhamento automático contra o outro, e usar a própria interdependência de ambos com o Brasil como argumento de reciprocidade”, pontua.

Apesar disso, o especialista alerta que a margem brasileira fica menor quando a disputa sai do comércio e entra em áreas sensíveis, como segurança e tecnologia.

“Semicondutores, telecom, dados, satélites, cibersegurança e infraestrutura crítica tendem a ser tratados por Washington e Pequim como ‘bens estratégicos’, nos quais a ambiguidade é menos tolerada”, observa.

Na avaliação de Nyegray, esse é o tipo de cenário em que o Brasil pode ser cobrado a fazer escolhas mais explícitas, especialmente em temas ligados a infraestrutura crítica e cadeias de valor tecnológicas.

A cientista política e professora de relações internacionais Denilde Holzhacker afirma que o Brasil tem tradição de atuação multilateral e costuma conseguir construir alianças amplas, principalmente entre países do Sul Global. “Essa é a percepção do Xi Jinping, que os dois países seriam capazes de influenciar nessa construção”, afirma.

Ela avalia que esse capital diplomático ajuda o país a se colocar como articulador em fóruns internacionais, mas não garante poder de influência ilimitado dentro da ONU.

Para Holzhacker, a principal limitação brasileira não é de prestígio, mas de capacidade material para oferecer incentivos e sustentar iniciativas de maior escala. “A gente tem um grande soft power, mas não temos condições de oferecer para os países e mesmo para a própria ONU sermos capazes de garantir em termos de financiamento da organização”, constata.

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