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Quantos segundos vale uma vida?

Atravessar uma rua em São Paulo se parecia mais com correr uma maratona do que com exercer um direito

Por Helena Degreas

Eu queria escrever sobre outra coisa. Sobre cidades que funcionam, políticas que chegam antes do dano, dias em que atravessar a rua não exige cálculo nem pressa. Mas o tema retorna. Não por insistência pessoal. Retorna porque a cidade e seus gestores não mudam.

Em 2021, escrevi nesta coluna que atravessar uma rua em São Paulo se parecia mais com correr uma maratona do que com exercer um direito. Não era figura de linguagem. Era descrição. O semáforo abre, o corpo calcula, o passo acelera, o tempo não basta. A travessia termina no vermelho piscante, na buzina, no risco incorporado à rotina. Quatro anos depois, a cena permanece. Agora medida.

O relatório Travessia #Cilada – Resultados 2025, do Instituto Corrida Amiga, transforma essa experiência em dado. Mede tempos, larguras de vias, velocidades de caminhada. Mostra que o padrão adotado para pedestres segue baseado em um corpo padrão: rápido, sem pausas.

Para crianças, idosos e pessoas com deficiência, a maioria das travessias não oferece tempo suficiente. Quando há ajuste, ele costuma ocorrer no vermelho piscante – fase em que muitos interrompem ou aceleram a travessia. O sistema segue exigindo pressa de quem não pode correr.

No mesmo período, os números oficiais indicam o efeito desse desenho. Reportagem recente do Bom Dia Brasil mostrou que São Paulo teve, em 2025, um dos anos com mais mortes no trânsito, com média de três por dia.

Não se trata de casos isolados. Trata-se de consequência. Quase metade dos atropelamentos fatais ocorre quando a pessoa atravessa na faixa, com sinal verde. O problema não está no pedestre. Está no tempo disponível.

O relatório também aponta caminhos. Reduzir o ciclo semafórico total para diminuir a espera. Rever a velocidade de referência adotada para pedestres, hoje acima do praticado pela maior parte da população. Garantir tempo exclusivo de travessia, com foco próprio para pedestres. Rever o uso do vermelho piscante, que gera dúvida e não informa quanto tempo resta. Ajustar semáforos conforme horários e fluxos. Encurtar distâncias com alargamento de calçadas e rebaixamento de guias. Adotar parâmetros previstos no Estatuto do Pedestre e na legislação de acessibilidade.

Nada disso é segredo. Nada disso depende de inovação. Depende de decisão política. O tempo no semáforo expressa uma escolha sobre quem tem prioridade de circulação. Se o cidadão a pé ou o motorista. Se o corpo que atravessa ou o veículo que acelera.

O que conecta a coluna de 2021, o relatório de 2025 e os dados de mortalidade é a repetição de uma opção política. Enquanto ela não mudar, a pergunta seguirá aberta: quantos segundos vale uma vida?

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