‘Resistência significativa’: o que EUA esperavam na operação de captura de Maduro
Mais de 150 aeronaves participaram da Operação Resolução Absoluta, incluindo caças, bombardeiros e drones

Os Estados Unidos esperavam uma “resistência significativa” dos sistemas de defesa aérea da Venezuela durante a operação para capturar o ex-presidente do país, Nicolás Maduro, revela um memorando recém-divulgado pelo DOJ (Departamento de Justiça) dos EUA.
O documento, fortemente censurado, traz o planejamento do governo Trump antes da operação militar realizada no início de janeiro, incluindo a oposição que as forças americanas poderiam enfrentar por parte das Forças Armadas venezuelanas e o que isso significaria para os helicópteros que transportariam operadores especiais até o centro de Caracas para capturar Maduro e sua mulher.
“Espera-se que as forças dos EUA enfrentem resistência significativa durante a aproximação”, escreveu T. Elliot Gaiser, procurador-geral adjunto, em um memorando datado de 23 de dezembro e tornado público nesta semana. “Há até 75 posições de baterias antiaéreas ao longo da rota de aproximação até Fort Tiuna”, citou Gaiser, com base em informações de planejamento fornecidas pelo Departamento de Defesa.
Fort Tiuna, ou Fuerte Tiuna, é uma grande instalação militar na capital Caracas que abriga ministério da Defesa, comandos estratégicos, residências oficiais e outras infraestruturas críticas. Acreditava-se que Maduro estivesse no local durante a incursão. Os EUA bombardearam intensamente a base, e imagens de satélite mostram destruição generalizada após o ataque.

O memorando do DOJ também observou que a mulher de Maduro, Cilia Flores, provavelmente estaria na base. Segundo o texto, ela é “conhecida por ser mais agressiva e combativa” do que o marido.
Mais de 150 aeronaves de guerra dos EUA participaram da operação americana, batizada de Operação Resolução Absoluta, incluindo caças, bombardeiros e drones. Algumas dessas aeronaves realizaram ataques contra alvos militares venezuelanos, como sistemas de mísseis terra-ar, para abrir caminho para helicópteros voando em baixa altitude que transportavam as forças responsáveis pela captura de Maduro e de sua mulher.

Equipamentos da China e da Rússia
O memorando afirma ainda que a Venezuela possuía, embora sem especificar devido às extensas censuras, “armas” que seriam “capazes de derrubar os helicópteros que transportam” as forças de ataque. É possível que isso seja uma referência aos sistemas portáteis de defesa aérea russos Igla, mísseis lançados do ombro projetados para atingir alvos em baixa altitude, mas isso não é certo. Maduro havia declarado antes da incursão que a Venezuela possuía milhares de lançadores Igla.
A Venezuela dependia fortemente de sistemas russos para sua rede de defesa aérea, como baterias S-300, sistemas Buk e lançadores S-125 Pechora, além de radares chineses. Acredita-se que esses sistemas fossem versões de exportação mais antigas, embora ainda operacionais; no entanto, reportagens indicam que alguns deles poderiam estar fora de operação ou armazenados no momento do ataque.
Embora houvesse dúvidas antigas sobre a prontidão da defesa aérea venezuelana, os planejadores do Pentágono ainda consideraram necessário neutralizá-la. “Antes que a força de assalto chegue a Fort Tiuna”, diz o memorando, aeronaves “atuarão como escolta e eliminarão baterias antiaéreas posicionadas, conforme necessário”.
“Os riscos para a missão são significativos. O sucesso dependerá do fator surpresa”, alertou o memorando do DOJ, que analisa a legalidade da incursão americana.
As defesas aéreas da Venezuela não derrubaram nenhuma aeronave militar dos EUA durante a operação. O general Dan Caine, Chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, disse pouco depois do fim da missão que os sistemas foram rapidamente desmantelados pelas forças americanas.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmou posteriormente que “parece que aquelas defesas aéreas russas não funcionaram tão bem assim, não é mesmo?”.
O memorando recém-divulgado do DOJ, que detalha como os EUA poderiam apresentar a ação como uma operação de aplicação da lei, e não como um ato de guerra, afirma que, “além dos alvos de fogo pré-assalto”, o Departamento de Defesa “identificou três aeródromos que poderão ser destruídos caso pareça que caças estejam sendo reunidos ali para interceptar a força de assalto”.
“Os aeródromos não serão atacados de outra forma, pois têm uso duplo, militar e civil”, acrescenta o documento. O texto foi escrito mais de uma semana antes da incursão, portanto não está claro se o planejamento americano foi ajustado nos dias que antecederam a missão.
Imagens de satélite revelaram danos no Aeroporto de Higuerote, na costa norte da Venezuela, a dezenas de quilômetros a leste de Caracas, após a incursão. Fotos da pista mostraram um sistema de defesa aérea destruído e uma aeronave leve destruída.
Embora os EUA aparentemente não tenham enfrentado a resistência substancial que esperavam, ainda houve confronto durante a operação. As forças americanas invadiram o complexo de Maduro sob fogo intenso e, em determinado momento, um helicóptero foi atingido, supostamente por disparos de arma de fogo, mas permaneceu em condições de voo.
Um funcionário da Defesa afirmou que sete militares americanos ficaram feridos na incursão. “O fato de essa missão extremamente complexa e extenuante ter sido executada com tanto sucesso e com tão poucas lesões é um testemunho da expertise de nossos combatentes conjuntos”, acrescentou.
Venezuela e Cuba afirmaram que dezenas de integrantes de suas forças de segurança foram mortos durante a operação.



