Mangueirão é caldeirão e termômetro de paixões centenárias de Belém
Estádio atravessa gerações como símbolo esportivo, cultural e afetivo da capital paraense nos 410 anos da capital

Ao completar 410 anos, Belém reafirma sua identidade a partir de espaços que ultrapassam a função física e se consolidam como marcos de memória, pertencimento e vida coletiva.
Entre esses símbolos urbanos, o Estádio Olímpico do Pará Jornalista Edgar Proença, o Mangueirão, ocupa lugar central. Mais do que concreto, arquibancadas e gramado, a arena traduz diferentes fases do desenvolvimento da capital paraense, funcionando como palco de celebrações esportivas, culturais e cívicas que atravessam gerações e ajudam a contar a própria história da cidade.
Projetado em 1969 pelo arquiteto paraense Alcyr Meira, o Mangueirão nasceu em um contexto de expansão urbana e de afirmação do esporte como política pública em Belém. Inaugurado em 4 de março de 1978, o estádio foi apresentado ao público ainda incompleto, o que lhe rendeu o apelido de “Bandola”.
Mesmo assim, desde seus primeiros anos, o espaço já se colocava como uma obra estratégica para a capital, pensado para integrar lazer, esporte e urbanização em grande escala.
A partida inaugural, entre uma seleção local formada por atletas de Remo, Paysandu e Tuna Luso e a seleção do Uruguai, marcou simbolicamente o início dessa trajetória. A vitória paraense por 4 a 0, com o primeiro gol da história do estádio marcado por Raimundo Mesquita, consolidou o Mangueirão como um espaço de afirmação regional.
O episódio, frequentemente citado em estudos acadêmicos, reforça a ideia do estádio como um “lugar de memória”, no sentido proposto por Canan Barra da Silva, José Dias Leal Neto e Delson Eduardo da Silva Mendes, no artigo “Mangueirão: uma construção de influências” (2016), ao destacar a forte carga simbólica associada aos seus primeiros eventos.
As sucessivas reformas ampliaram esse papel histórico. A primeira grande intervenção ocorreu em 2000, mantendo o traço original de Alcyr Meira e incorporando uma pista olímpica, o que levou à reinauguração em 2002 como Estádio Olímpico do Pará.
Já entre 2021 e 2023, uma requalificação completa adequou a arena aos padrões internacionais da FIFA, preservando sua identidade arquitetônica ao mesmo tempo em que a inseriu em uma nova lógica de uso multifuncional e contemporâneo.

Relevância cultural e patrimonial
Pesquisas como a desenvolvida por Jonathan Rodrigues Nunes e Silvio José de Lima Figueiredo, no artigo “Referências culturais e patrimônio: o Mangueirão, em Belém, PA” destacam o estádio como um espaço de produção de sociabilidades.
O estádio é a dimensão não só de práticas esportivas, mas também de espetáculos musicais e grandes eventos coletivos que ajudam a construir sentidos de pertencimento à cidade de Belém.
Essa relevância também se manifesta na diversidade de usos ao longo do tempo. O Mangueirão entrou para a história do atletismo continental ao sediar, em 2005, o Grande Prêmio Brasil de Atletismo, com público recorde na América Latina.
No futebol, tornou-se palco de momentos emblemáticos, como o Superclássico das Américas de 2011, quando mais de 45 mil torcedores cantaram o Hino Nacional à capela, episódio amplamente analisado por estudiosos como exemplo da força simbólica dos estádios enquanto espaços de ritual coletivo.
Enquanto patrimônio urbano, o Mangueirão representa a capacidade de Belém de preservar e ressignificar seus equipamentos públicos. A grande reforma concluída em 2023, reabrindo o estádio com o clássico Re-Pa diante de um público superior a 45 mil pessoas, evidencia essa dimensão: o estádio segue vivo, atualizado e funcional, sem romper com sua memória.
Em um ano emblemático como o dos 410 anos da capital paraense, o Mangueirão se reafirma como um dos principais símbolos materiais e imateriais da cidade, conectando passado, presente e futuro da experiência urbana belenense.



