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Pacote de R$ 31 bilhões para combustíveis acende alerta fiscal em ano de eleições

Estratégia do governo reduz pressão nas bombas, mas não resolve dependência externa e gera preocupação sobre as contas públicas

O Governo Federal aposta em um pacote de R$ 31 bilhões para tentar frear a alta dos combustíveis,impulsionada pela guerra no Oriente Médio – uma crise distante no mapa, mas que pesa no bolso dos brasileiros.

As medidas buscam suavizar os impactos imediatos sobre a economia, mas acendem um alerta duplo: o efeito nas contas públicas em ano eleitoral e a real capacidade de segurar os preços no longo prazo.

O conjunto de ações inclui subsídios, linhas de crédito e incentivos para tentar frear os preços do diesel, gás de cozinha e querosene de aviação. Especialistas avaliam, contudo, que as medidas têm caráter emergencial e não alteram fundamentos como a capacidade limitada de refino ou a dependência externa.

“O que se faz é trocar intensidade por tempo. Desloca-se o problema, mas não se elimina”, sustenta o cientista político Gabriel Amaral.

Amaral também chama a atenção para o timing político. Em ano eleitoral, um pacote dessa magnitude pode tensionar a confiança fiscal.

“Ainda que haja tentativa de compensação, o mercado observa menos o anúncio e mais a consistência ao longo do tempo. Quando a política fiscal passa a produzir efeitos imediatos, o equilíbrio deixa de ser apenas técnico e passa a ser também político”, analisa.

Segundo ele, o subsídio ao diesel funciona como uma espécie de “analgésico econômico”: alivia a dor, mas não trata a causa.

“A subvenção atua como amortecedor de choque, reduz o repasse imediato e reorganiza expectativas no curto prazo. Cumpre um papel relevante quando a pressão externa ameaça contaminar rapidamente o custo de vida, sobretudo em cadeias sensíveis como transporte e alimentos. O problema é que não resolve as causas estruturais”, explica.

Outro ponto sensível é o efeito duradouro das intervenções.

“O temporário, em política, raramente é neutro. Ele cria precedentes, amplia demandas e gera pressão por continuidade. O custo futuro não está só no orçamento, mas na dificuldade de encerrar o que começou como exceção”, alerta.

“Efeito rebote”

Do ponto de vista econômico, o pacote também traz efeitos colaterais. O economista Renan Silva destaca que as medidas pressionam o resultado fiscal. “Há impacto direto na projeção de déficit, estimada em R$ 59,8 bilhões, o que levou à criação de um imposto de 12% sobre a exportação de petróleo como forma de compensação”, comenta.

Silva também alerta para distorções provocadas pelos subsídios. “Ao descolar o preço interno da paridade internacional, há risco de desestimular importadores privados e aumentar a possibilidade de desabastecimento, especialmente considerando que o Brasil importa cerca de 25% do diesel que consome”.

Se hoje o pacote funciona como freio, amanhã pode virar impulso. O economista aponta para o chamado “efeito rebote”: quando os incentivos acabam, os preços podem subir de forma mais abrupta.

“Há risco real. O fim das isenções de PIS/Cofins em maio e do subsídio de R$ 10 bilhões ao diesel produzido no Brasil em dezembro, somado ao aumento previsto do ICMS, pode gerar um salto concentrado nos preços ao consumidor”, alerta.

Para ele, as medidas têm caráter claramente emergencial. “Não alteram fundamentos como a capacidade de refino ou a dependência externa. Funcionam como um amortecedor temporário diante da volatilidade geopolítica global, utilizando recursos públicos”

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