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Como bloqueio de Ormuz tem sido lucrativo para o Irã

Regime tem exigindo US$ 2 milhões para embarcações passarem "seguras" pelo estreito. País também tem continuado a exportar petróleo e conseguiu até alívio de algumas sanções

Ao longo da história, indivíduos e entidades bem relacionados sempre encontraram um jeito de lucrar com as crises. Não haveria por que ser diferente na guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. O conflito se aproxima de completar um mês, ao mesmo tempo em que os EUA anunciam negociar uma trégua.

Nas últimas semanas, houve alegações de que varejistas de combustíveis teriam aumentado os preços nas bombas poucas horas após os primeiros ataques; de que as grandes empresas petrolíferas estariam obtendo lucros extraordinários com o barril de petróleo ultrapassando os US$ 100; e também de que as seguradoras marítimas teriam elevado os preços do prêmio de forma exponencial depois do bloqueio do Estreito de Ormuz por Teerã.

A última denúncia, no entanto, aponta para um dos atores do conflito. De acordo com relatos, o Irã estaria cobrando até 2 milhões de dólares (R$ 10,45 milhões) de navios-tanque de petróleo e gás para autorizar uma “passagem segura” por Ormuz.

Lloyd’s List, uma das publicações marítimas mais antigas e respeitadas do mundo, informou na semana passada que pelo menos uma embarcação já teria efetuado esse pagamento.

Cobrança de “pedágio” em Ormuz?

Se for confirmada, essa iniciativa transformará um dos gargalos estratégicos mais críticos do planeta – por onde passa um quinto do petróleo e do gás consumidos no mundo – em um pedágio de alto risco.

Embora vários funcionários iranianos tenham negado a informação, o parlamentar Alaeddin Boroujerdi afirmou na TV estatal que as taxas estariam sendo cobradas como parte de um “novo regime soberano” no estreito, justificada como uma maneira de cobrir “custos de guerra”.

De acordo com Robert Huebert, especialista em relações internacionais da Universidade de Calgary, no Canadá, uma cobrança de “pedágio” no Estreito de Ormuz violaria o direito marítimo internacional. “Liberdade de navegação é a base do comércio marítimo internacional, é a capacidade de transitar por essas áreas sem qualquer tipo de obstrução”, disse Huebert. “Se você fizer isso [cobrar uma taxa], enfrentará oposição direta de praticamente todos os Estados”, complementou.

Com mais de 3,2 mil embarcações retidas, Peter Sand, analista-chefe da empresa de inteligência marítima Xeneta, com sede em Copenhague, minimizou a importância da cobrança para a reabertura do estreito. “Por mais alta que pareça, [a taxa de 2 milhões de dólares] não é o fator essencial”, disse Sand à DW. “O que importa é que ainda não é seguro atravessar [Ormuz]”

Ainda assim, a disposição de grandes importadores de petróleo e gás de iniciar negociações diretas e pagar uma taxa tão elevada por navio – além de coberturas de seguro já exorbitantes – revela o grau de desespero de países altamente dependentes de energia para garantir ao menos um fluxo mínimo pelo estreito.

“Alguns [países] podem querer pagar”, acrescentou Sand. “É um último prêmio relativamente pequeno para assegurar algum nível de fornecimento energético contínuo”

Trânsito facilitado para navios “não hostis”

Em um novo desdobramento, o Irã enviou uma carta aos membros da Organização Marítima Internacional (OMI) dizendo que agora permitirá que “embarcações não hostis” atravessem Ormuz, mediante coordenação com Teerã.

“Até agora, [o Irã] havia autorizado entre três e cinco travessias por dia”, disse Sand. “[Agora Teerã está dizendo:] se você não é inimigo do Irã, o estreito está aberto para você”

Enquanto isso, um porta-voz da OMI disse à DW que a organização está trabalhando para estabelecer “uma medida provisória e urgente para facilitar a evacuação segura dos navios mercantes atualmente retidos na região do Golfo”.

Antes que a crise se agrave ainda mais, a entidade afirmou que é crucial proteger a vida e o bem-estar dos marinheiros que estão presos, ao mesmo tempo em que pressiona para que navios dispostos a transitar por Ormuz o façam sem serem atacados.

Paralelamente, a produção e as exportações de petróleo do Irã continuam sem interrupção. E na semana passada, o governo do presidente dos EUA anunciou uma isenção de sanções de 30 dias para a compra de petróleo do Irã que já se encontra em petroleiros para aliviar as pressões de fornecimento de energia desde o início da guerra dos EUA e Israel contra o Irã. A alta dos preços gerada pela guerra também significa que os iranianos têm conseguido cobrar mais por esse petróleo.

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