Selic alta encarece crédito rural e impõe cautela em ano de eleição
Taxa básica elevada no momento de elaboração do Plano Safra 2026/27 pressiona equalização e reduz margem para novas quedas nas linhas de financiamento

A decisão do Banco Central de reduzir a taxa básica de juros em apenas 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano, reforça um cenário de restrição para a política agrícola e deve limitar mudanças relevantes nas taxas do crédito rural no próximo ciclo do Plano Safra.
O corte, considerado marginal, mantém o custo do dinheiro em patamar elevado justamente no período em que o governo começa a elaborar a peça, que depende diretamente da diferença entre a taxa de mercado e os juros subsidiados ao produtor.
Na prática, técnicos envolvidos na formulação do programa avaliam que o espaço para reduzir as taxas do crédito rural segue apertado. O Plano Safra 2025/26, por exemplo, foi desenhado em um ambiente de Selic entre 14,25% e 14,75%, o mais alto desde o início do atual governo.
O cenário contrasta com os ciclos anteriores – e essa diferença aparece diretamente nas taxas cobradas ao produtor. No Plano Safra 2023/24, elaborado com a Selic em 13,75% e com expectativa de queda, as taxas de custeio empresarial ficaram em torno de 12% ao ano, enquanto linhas de investimento variavam entre 7% e 11,5%.
Já no Plano Safra 2024/25, construído em um ambiente de juros mais baixos – entre 10,5% e 10,75% – houve maior acomodação nas taxas, com programas incentivados mantendo níveis mais competitivos e menor pressão sobre a equalização. Esse quadro mudou no ciclo seguinte.
No Plano Safra 2025/26, desenhado com a Selic novamente elevada, as taxas subiram de forma generalizada: o custeio empresarial chegou a 14% ao ano, enquanto linhas de investimento passaram a superar 13% em diversas modalidades.
Na prática, mesmo com aumento expressivo no volume total de recursos, o custo do crédito ao produtor segue pressionado. Com a Selic elevada, restrição fiscal e um ambiente externo mais adverso, a avaliação no governo é de que, mantido o atual cenário, o próximo ciclo pode repetir — ou até manter — as taxas atuais, sem espaço relevante para cortes. É novamente um cenário “desafiador”.
Na avaliação de Felippe Serigati, pesquisador do FGV Agro, o corte do Banco Central reflete mais um compromisso já sinalizado do que uma mudança estrutural no cenário de juros. Ele destaca que o espaço fiscal limita a capacidade de reduzir taxas no crédito rural.
“A restrição fiscal é complicada, com um conjunto de gastos obrigatórios. Apesar do esforço do governo para aumentar a arrecadação, oferecer juros muito baixos exige fôlego e, sem isso, a situação fica difícil”, disse.
Do lado do setor produtivo, o cenário também não é homogêneo. Parte dos produtores opera com margens mais apertadas, enquanto outra parcela está muito endividada e ainda há os casos de recuperação judicial. A conjuntura internacional atual adiciona volatilidade, com pressão sobre combustíveis e incertezas no mercado de insumos.



