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Ações recentes dos EUA voltam a tensionar relação com governo Lula

Integrantes do governo brasileiro veem ações da Casa Branca como iniciativas impulsionadas por ala específica da gestão Trump

Ao longo da última semana, uma série de ações tomadas por Donald Trump voltaram a tensionar a relação com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que até então vinha sendo pacificada após contatos diretos entre os dois chefes de Estado.

O ruído atingiu um novo pico nessa sexta-feira (13) com a decisão do governo brasileiro de revogar o visto do assessor sênior do Departamento de Estado de Trump, Darren Beattie. Segundo o Ministério das Relações Exteriores (MRE), o norte-americano omitiu e falsificou informações sobre o motivo da visita, o que teria embasado a decisão.

Beattie viria ao Brasil sob o pretexto de participar de uma conferência sobre minerais críticos. Ele também solicitou um encontro com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que está preso na Papudinha desde janeiro – agenda que não foi informada na ocasião em que solicitou o visto.

No requerimento, o norte-americano também afirmou que se reuniria com “autoridades do governo brasileiro”, mas até então não teria solicitado qualquer encontro com integrantes do Executivo.

Diante do desencontro de informações, o presidente Lula determinou que o Itamaraty suspendesse o documento de Beattie.

Antes da crise provocada pela visita do assessor de Trump, a Casa Branca havia tomado outras ações relacionadas ao Brasil nesta semana. A Representação Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês) abriu, na quinta-feira (12), uma nova investigação com base no Artigo 301 da Lei de Comércio de 1974, que trata de práticas consideradas abusivas no comércio internacional.

A medida busca avaliar se governos estrangeiros falham em impedir a circulação ou importação de produtos fabricados com trabalho forçado, o que poderia gerar vantagem competitiva considerada injusta.

Além do Brasil, outras 59 economias, como China, União Europeia, México, Argentina e Israel, são alvo do procedimento, que pode resultar na imposição de novas tarifas sobre produtos exportados ao mercado norte-americano após a queda do tarifaço, determinada pela Suprema Corte dos Estados Unidos em fevereiro.


Entenda

  • A relação entre Brasil e EUA voltou a enfrentar possíveis ruídos após uma série de ações do governo Trump na última semana.
  • A tensão mais recente se refere à decisão do Brasil de revogar o visto do assessor do Departamento de Estado Darren Beattie, após o Itamaraty apontar omissão de informações sobre sua agenda no país, que incluiria visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro na cadeia.
  • Antes disso, os EUA haviam aberto investigação comercial contra 60 economias – entre elas o Brasil – para apurar possíveis vantagens competitivas ligadas ao uso de trabalho forçado, o que pode resultar em novas tarifas.
  • Washington também avalia classificar as facções PCC e CV como organizações terroristas, hipótese vista pelo governo brasileiro como risco de ingerência externa.

PCC e CV na mira dos EUA

Na segunda-feira (9) passada, veio à tona a informação de que as duas maiores organizações criminosas do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), entraram na mira do governo dos Estados Unidos. A gestão de Donald Trump avalia classificar as facções como organizações terroristas internacionais.

A medida, estudada desde o ano passado, pode ser adotada em meio à campanha de Washington para combater o tráfico internacional de drogas na América Latina.

O governo brasileiro, por sua vez, é contrário à iniciativa. Uma das justificativas é que grupos criminosos como PCC e CV não se enquadram na legislação brasileira sobre terrorismo, que define esse tipo de crime como ações motivadas por razões religiosas, ideológicas, políticas ou de cunho preconceituoso ou xenofóbico.

Na prática, a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas poderia abrir brechas para operações norte-americanas em território brasileiro. O governo dos EUA já adotou medida semelhante ao enquadrar cartéis de drogas venezuelanos como organizações terroristas internacionais.

A decisão antecedeu a operação militar dos EUA na Venezuela, que resultou na captura do ex-presidente Nicolás Maduro, acusado de ter envolvimento com o tráfico internacional de drogas.

Diante desse cenário, o governo Lula vê a possível classificação como uma brecha para interferências na soberania do Brasil.

Por isso, a gestão petista passou a atuar diplomaticamente para tentar evitar a medida. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, discutiu o tema por telefone com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Na conversa, o chanceler brasileiro buscou convencer o norte-americano a não levar a proposta adiante.

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