Guerra no Irã: o boom do turismo no Oriente Médio acabou?
Conflito atinge os países da Península Arábica, que registravam recordes atrás de recordes no setor. Com viajantes ainda sem conseguir voltar para casa, será possível reverter esse quadro?

Centenas de milhares de viajantes de todo o mundo estão retidos no Oriente Médio após os recentes ataques dos EUA e de Israel ao Irã e as retaliações de Teerã. O bloqueio extensivo do espaço aéreo sobre a Península Arábica fez com que turistas e viajantes a negócios ficassem retidos no local. Além disso, as perturbações no tráfego marítimo do Estreito de Ormuz também afetaram navios de cruzeiro que se encontravam no Golfo Pérsico.
“A crise atual é um choque absoluto para os países afetados na região”, afirma Hans Hopfinger, professor de Geografia Cultural na Universidade Católica de Eichstätt-Ingolstadt, que pesquisou o desenvolvimento do turismo no Oriente Médio e no Norte da África. Segundo ele, alguns dos países do Golfo se promoveram no passado como refúgios turísticos seguros. “Em Dubai ou em outros emirados, nunca houve ataques terroristas como em outros centros turísticos árabes”, diz Hopfinger.
Nenhuma região teve tanto crescimento no setor
Esse aspecto também motivou o boom de visitantes que a região tem experimentado nos últimos anos. “O Oriente Médio é uma das regiões turísticas que mais crescem no mundo”, afirma a Organização das Nações Unidas para o Turismo. No ano passado, chegaram pela primeira vez quase 100 milhões de viajantes internacionais – do Egito e da Jordânia ao Catar e à Arábia Saudita, o que representa uma alta de 39% em comparação com o período pré-pandemia. Nenhuma outra região do mundo registrou um crescimento semelhante desde então.
A dimensão que o setor de viagens assumiu, especialmente nos países do Golfo, é bem ilustrada pelo Aeroporto Internacional de Dubai, que se tornou um hub global nos últimos anos. De acordo com dados do terminal, em 2025 foram atendidos mais de 95 milhões de passageiros internacionais. O número não tem precedentes e é superior ao de qualquer outro aeroporto do mundo. Ao mesmo tempo, o emirado registrou um novo recorde de visitantes, com quase 20 milhões de turistas pelo terceiro ano consecutivo.
De acordo com Hans Hopfinger, esse sucesso se deve principalmente ao planejamento bem-feito. “Eles reconheceram, como estratégia da diferenciação econômica, que era preciso deixar de lado a dependência do petróleo e do gás”, aponta o professor. Dessa forma, Dubai foi o primeiro emirado a elaborar, desde cedo, um plano diretor para promover o turismo de compras, torneios de golfe e outros grandes eventos esportivos, mas também o turismo cultural. Além dos Emirados Árabes Unidos, outros países do Golfo também mudaram de rota.

Vistos de turista na Arábia Saudita
“Os países ricos, detentores de petróleo e gás natural, não tiveram a necessidade de apostar no turismo durante muito tempo”, explica Hopfinger. Não foi o mesmo que ocorreu em países sem recursos naturais significativos. Egito, Tunísia, Jordânia, Marrocos e Omã já investem há muito tempo no setor turístico.
A Arábia Saudita, por outro lado, só começou a conceder vistos de turista em 2019. Com uma estratégia intitulada “Visão 2030”, que prevê investimentos bilionários em diversos megaprojetos, o reino saudita agora busca ascender à primeira divisão dos destinos de viajantes de todo o mundo. A meta é que, até 2030, 70 milhões de turistas visitem o país por ano.
Os visitantes são atraídos principalmente pela diversidade da oferta nos países do Golfo, diz Hopfinger. A variedade vai desde templos históricos até megacidades modernas com hotéis, shopping centers e museus espetaculares. Além disso, há grandes eventos como as corridas de Fórmula 1. A Copa do Mundo no Catar em 2022 e a Expo em Dubai em 2021 também aumentaram consideravelmente a imagem do destino turístico. Com Meca e Medina, a Arábia Saudita possui dois dos pontos de peregrinação mais importantes do Islã, e que atraem milhões de fiéis todos os anos.



