Infância offline: especialistas discutem movimento global para tirar crianças das redes sociais
Brasil segue tendência mundial ao propor limites à exposição de menores a conteúdos nocivos na internet

A restrição ao uso de redes sociais por menores de 16 anos tem ganhado força globalmente. Após a Austrália adotar a proibição em dezembro de 2025, a Espanha anunciou planos para implementá-la. No mesmo sentido, Portugal manifestou interesse na iniciativa por meio de um projeto de lei apresentado ao parlamento há uma semana.
O movimento segue o adotado pelo Legislativo francês, que, também na semana passada, aprovou um texto limitando o acesso a maiores de 15 anos. Países como a Dinamarca, Grécia e Espanha, por sua vez, demonstraram interesse em expandir essa proibição a toda a União Europeia.
No Brasil, o debate também ganha corpo. Entre 2024 e 2025, diversas normas sobre a presença digital de crianças e adolescentes foram sancionadas, elevando o tema à pauta pública.
Um episódio recente ilustra a complexidade do cenário: após a plataforma de jogos Roblox implementar um mecanismo de verificação de idade, crianças organizaram protestos em “praças públicas digitais”.
Para o doutor em educação e literacia científica Diogo Bacellar Sousa, o país acompanha uma tendência internacional de proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.
Entretanto, ele ressalta que é preciso atenção à aplicação das medidas no cenário brasileiro. Segundo Sousa, regras excessivamente rígidas ou punitivas podem se tornar inaplicáveis, resultando em judicialização e desigualdade de acesso.
“A realidade brasileira é diversa. Desigualdade social, lacunas na orientação familiar e escolar, e adolescentes com níveis distintos de maturidade digital tornam o simples bloqueio de acesso uma medida insuficiente ou até injusta”, avalia.

Educação dentro e fora de casa
Na visão do especialista, proibir o acesso de adolescentes às redes sociais não é uma medida trivial, e rotular a iniciativa apenas como “censura” simplifica excessivamente um debate profundo.
“De certa forma, qualquer restrição fere a liberdade de expressão, porque limita o acesso a espaços digitais onde adolescentes se informam e se comunicam. Por outro lado, essa limitação é justificável quando é proporcional, educativa e voltada à proteção integral, considerando os riscos reais do ambiente digital e a vulnerabilidade dos jovens”, analisa.
Infância online e reflexos neurológicos
A psicóloga Andrezza Alves explica que a relação de crianças e adolescentes com as redes sociais difere radicalmente da estabelecida por adultos. Isso ocorre porque o sistema de recompensa cerebral, movido pela dopamina, é significativamente mais sensível nos primeiros anos de vida.
“A dopamina está relacionada à sensação de prazer, motivação e expectativa de recompensa, e responde de forma mais intensa a estímulos imediatos e imprevisíveis, como acontece nas redes sociais. Ao mesmo tempo, as áreas do cérebro responsáveis pelo controle de impulsos, pela avaliação de riscos e pela capacidade de interromper um comportamento ainda estão em desenvolvimento”, pontua Alves.
Dessa forma, ao serem expostas a padrões de beleza irreais ou comportamentos adultizados, as crianças tendem a antecipar preocupações que não condizem com sua fase de desenvolvimento.



