Vacina contra câncer criada há 20 anos pode mudar o futuro da doença
Imunidade duradoura revela caminho promissor para vacinas contra o câncer

Uma vacina experimental aplicada há mais de 20 anos voltou ao centro da ciência. O motivo é surpreendente: todas as pacientes que participaram de um antigo ensaio clínico ainda estão vivas, apesar de terem câncer de mama metastático, uma condição geralmente associada a baixa sobrevida.
Ao reexaminar esses casos, pesquisadores descobriram que o sistema imunológico manteve uma memória ativa contra o câncer por décadas, levantando a possibilidade de que um elemento essencial das vacinas oncológicas tenha sido negligenciado até agora.
Como o sistema imune aprendeu a reconhecer o câncer
A nova análise mostrou que, mesmo após tantos anos, as pacientes preservaram células imunes capazes de reconhecer o tumor. Essas células apresentavam um marcador específico chamado CD27, associado à memória imunológica de longa duração. Esse achado sugere que a vacina não apenas estimulou uma resposta temporária, mas ensinou o sistema imunológico a lembrar do câncer ao longo da vida.
Os resultados foram publicados na revista científica Science Immunology, no estudo “O agonismo de CD27 aumenta as respostas de células T CD4 de longa duração à vacina, essenciais para a imunidade antitumoral”, de Bin-Jin Hwang como autor principal, publicado em 2025 (DOI: 10.1126/sciimmunol.adz2294).
O CD27 funciona como um amplificador da resposta imune, ajudando as células de defesa a se manterem ativas e prontas para agir. Ao perceber a importância desse sinal, os pesquisadores decidiram testar se reforçar o CD27 poderia melhorar a eficácia das vacinas contra o câncer.
Em experimentos de laboratório, uma vacina direcionada ao HER2, proteína presente em alguns tumores, foi combinada com um anticorpo ativador do CD27. O resultado foi uma eliminação tumoral muito mais eficiente, indicando que o reforço desse sinal muda drasticamente o desempenho da vacina.

Células auxiliares ganham protagonismo
Um dos achados mais relevantes foi o papel das células T CD4, tradicionalmente vistas como coadjuvantes da resposta imune. O estudo mostrou que essas células são fundamentais para sustentar a memória imunológica e apoiar outras células na destruição do tumor.
Quando a ativação do CD27 foi combinada com estímulos adicionais às células T CD8, conhecidas por atacar diretamente o câncer, a resposta antitumoral se tornou ainda mais robusta. Isso indica que a cooperação entre diferentes braços do sistema imunológico é decisiva para resultados duradouros.
Por que isso muda o futuro das vacinas contra o câncer?
Durante anos, vacinas oncológicas mostraram potencial, mas não alcançaram os resultados esperados em larga escala. A nova evidência sugere que o problema pode não estar no conceito da vacina, mas na ausência de sinais imunológicos essenciais, como o CD27.
Além disso, o fato de que uma única ativação do CD27 foi suficiente para gerar efeitos prolongados torna essa abordagem mais simples e compatível com terapias já existentes, como imunoterapias modernas e tratamentos direcionados.
A descoberta reforça que o sistema imunológico pode ser treinado para reconhecer o câncer por décadas. Ao entender como manter essa memória ativa, a ciência se aproxima de tratamentos mais eficazes, duradouros e personalizados, capazes de transformar o prognóstico de doenças que antes eram consideradas quase sempre fatais.



