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E a Venezuela? Como segue o país após um mês da captura de Maduro pelos EUA

Especialista destrincha história política da Venezuela que é fundamental para compreender o atual momento do país

Na madrugada de 3 de janeiro, forças dos Estados Unidos invadiram a Venezuela e capturaram o então líder do país, Nicolás Maduro. Passado um mês, o governo norte-americano de Donald Trump seguiu fazendo barulho com diversas ações de política externa, mas não largou o país sul-americano de mão.

O clima de incerteza paira sobre o povo venezuelano, agora sob comando de Delcy Rodríguez, faliada do governo Maduro. O petróleo, que brilha aos olhos dos EUA e move a história da Venezuela, segue em disputa. Tudo isso ainda sem soluções concretas para a crise humanitária ou para uma melhora efetiva da vida de quem segue no país. A situação é complexa e, para entender o que está em jogo, é preciso relembrar quais caminhos levaram a Venezuela a onde ela está agora.

Para Carolina Pedroso, especialista em América Latina e Venezuela e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a situação da Venezuela já era difícil de ser resolvida, e a intromissão dos Estados Unidos deixou a solução mais longe. Em entrevista ao Terra, ela destrincha os pontos de destaque para entender essa história.

Chavismo e ponto de virada

Mesmo com a captura de Maduro, a Venezuela segue com as mesmas estruturas de governo que vieram do chavismo. O chavismo, no caso, é um processo político ligado à figura de Hugo Chávez, que foi presidente da Venezuela de 1999 até 2013, quando morreu em exercício da função e apontou Nicolás Maduro para ser seu sucessor, como um herdeiro do movimento.

A atual realidade de desabastecimento, empobrecimento e de falta de recursos materiais não é inédita. Foi justamente em uma situação do tipo, no final dos anos 80, em que Chávez surgiu como uma liderança nacional. Na época, houve uma ‘quebra’ do Estado venezuelano – que viveu ápice do enriquecimento do petróleo nos anos 70. O povo, então, foi às ruas demonstrar seu descontentamento. Esse ponto de virada ficou conhecido como ‘Caracazo’, em 1989.

Hugo Chávez era militar de baixa patente, de origem simples, e participou da repressão – mas resolveu buscar por uma solução política contra isso. A Venezuela estava em um contexto democrático, com Carlos Andrés Pérez eleito. Mas esse então presidente, que já havia governado a Venezuela anos antes, adotou medidas impopulares e reabriu o setor petrolífero ao capital estrangeiro, o que motivou Chávez a tentar dar um golpe de Estado em 1992. E o golpe não deu certo.

Apesar de ter tido uma postura extrema, Chávez acabou se tornando uma figura popular, sendo visto como alguém que queria resolver os problemas do povo. E isso o levou a concorrer à eleição presidencial de 1998 e ser eleito democraticamente.

“O que ele propunha no início era, basicamente, compreender que sendo a Venezuela um país tão rico em petróleo, essa riqueza deveria ser acessível a todas as pessoas. Então, a principal plataforma dele era realmente fazer um combate frontal à desigualdade social por meio da riqueza do petróleo”, explica a especialista. Na época, por consequência, o país passou a ter uma nova postura internacional mais confrontativa em relação aos Estados Unidos – que foi um país que sempre teve muita presença econômica na Venezuela, onde as principais empresas que operavam o petróleo venezuelano eram norte-americanas.

Radicalização e começo de uma nova crise

Chávez acabou ‘provando do próprio veneno’ e foi vítima de um golpe em 2002 após ser eleito democraticamente. Antes disso, não era considerado uma liderança radical, promoveu mudanças, principalmente na área social, e tinha uma postura relativamente moderada na economia, alcançando conquistas sociais enquanto mantinha diálogo com a oposição. Isso mudou após ser sequestrado dentro do Palácio de Miraflores em uma tentativa da oposição em tomar o poder. 

O golpe durou poucas horas, mas foi marcado por violência. As coisas mudaram. “Chávez percebeu que essa oposição não está disposta a aceitar os termos democráticos, aceitou uma saída que não era institucional para tirá-lo do poder, então ele começa a radicalizar o movimento. Essa é uma questão fundamental para a gente compreender como a Venezuela chegou onde ela está agora. Não foi um processo que foi sempre assim, ele foi sendo modificado ao longo do tempo”, pontua Carolina.

A situação se tornou cada vez mais tensa. É como se a polarização política que começou a ser falada no Brasil de forma mais sistêmica a partir da reeleição de Dilma em meados de 2014 já fosse vivida na Venezuela pelo menos desde os anos 2002, comenta a especialista.

Na retomada do regime, Chávez começou um processo de “expurgo” das pessoas que participaram do golpe, ou que eram contrárias a ele, em vários espaços do Estado venezuelano – e principalmente do setor petroleiro. Essa saída de parte da mão de obra especializada e qualificada que atuava no setor fez com que os níveis de produtividade do petróleo venezuelano caíssem de forma que nunca foi recuperada. O Estado venezuelano passou a ter um total controle do petróleo e isso também gerou descontentamento no setor. 

“É um fator que nos ajuda a compreender a conjuntura atual da questão da pobreza, da desigualdade que retornou, da crise humanitária, da fuga das pessoas de lá, da crise migratória… Tudo isso tem a ver também com essa incapacidade de gerenciar o setor petroleiro de forma mais assertiva. A gente está falando do país com as maiores reservas do mundo, mas que não tem níveis de produtividade compatíveis com essa quantidade de petróleo” – Carolina Pedroso, especialista em América Latina e Venezuela e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

A especialista explica que o dinheiro que o Estado conseguia com o petróleo era redirecionado quase que integralmente a políticas públicas na época. Isso fez com que o país zerasse o déficit habitacional nas grandes cidades e chegasse à erradicação do analfabetismo. Mas a falta de reinvestimento no setor do petróleo fez com que isso se sustentasse apenas por 10 anos, dando início a uma crise. Crise essa que coincidiu com a piora da saúde de Chávez, com sua morte em 2013, e o início do governo Maduro com a Venezuela.

Hugo Chávez foi uma liderança em construção enquanto estava no poder. No início, ele não se entendia como uma figura de esquerda, mas se colocava como um militar nacionalista. Ele, que entrou no poder em 1999, apenas passa a se considerar socialista em 2005, no final de seu primeiro mandato. Nessa época, vários países da América Latina estavam começando a ser governados por políticos de esquerda. O movimento é conhecido como Onda Rosa – e inclui a primeira eleição de Lula, no Brasil.

Maduro e fechamento de regime

Nicolás Maduro assumiu o poder em 2013 em condições mais adversas do que quando Chávez governou. Nisso, foi em seus mandatos que a Venezuela ficou marcada pelo autoritarismo, fechamento de regime e sistematização da repressão política. 

Com Maduro no poder, o governo também passou por uma intensificação de sua militarização, com a distribuição de uma série de patentes e cargos importantes no país sendo direcionados a militares.

Nesse caminho, Maduro começou a ter sua legitimidade questionada. “Não só em 2024, que eu acho que talvez seja o momento mais evidente de ruptura da Constituição venezuelana [quando não foram divulgadas as comprovações dos resultados das urnas]. Mas na eleição de 2018, quando já havia indícios de que talvez o processo político venezuelano já estivesse com vícios importantes em relação à separação dos poderes e uma série de relatos que indicam de pessoas que foram coagidas a votar no Maduro para manter os benefícios sociais, principalmente no contexto desde muita crise”.

O povo venezuelano, então, vivenciou um período de piora da situação econômica internamente e em termos internacionais, acompanhado do aumento de violência política, de repressão e violações sistemáticas aos direitos humanos.

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