Analistas veem cálculo diplomático em discurso de Lula no Panamá para evitar conflitos
Em fórum internacional, presidente defende combate à fome e à desigualdade diante de líderes conservadores

Em um ambiente marcado por tensões geopolíticas e pela presença majoritária de lideranças conservadoras, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou o palco do Fórum Econômico Internacional – América Latina e Caribe 2026 para reafirmar uma diretriz histórica da política externa brasileira: “a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é contra a fome e a desigualdade”.
Para especialistas ouvidos pela reportagem, a declaração tem peso diplomático e político ao sinalizar o tipo de protagonismo que o Brasil busca exercer no continente.
O encontro ocorreu na Cidade do Panamá, e foi organizado pelo CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe), em parceria com o governo panamenho. O fórum reuniu autoridades políticas e representantes do setor econômico para discutir desafios estratégicos da região em um cenário internacional marcado por disputas comerciais, conflitos armados e instabilidade institucional.
Em seu discurso, Lula destacou que a realização do evento ocorre em um momento particularmente sensível para a América Latina e o Caribe, diante de transformações geopolíticas, econômicas e tecnológicas em escala global. O presidente também ressaltou o simbolismo do Panamá como sede do encontro. “Este é um verdadeiro ponto de união entre o Atlântico e o Pacífico”, afirmou.
Plano simbólico
Para o cientista político Gabriel Amaral, ouvido pela reportagem, o impacto da declaração não deve ser medido por efeitos práticos imediatos, mas pelo enquadramento político que ela propõe. Segundo ele, ao deslocar o conceito de “guerra” do campo militar para o social, Lula atua no plano simbólico e discursivo das relações internacionais.
“Trata-se menos de alterar correlações de força no curto prazo e mais de redefinir o que passa a ser considerado um conflito legítimo”, analisa.
De acordo com o especialista, a fala ganha ainda mais relevância por ter ocorrido em um ambiente dominado por lideranças conservadoras, sem a intenção explícita de buscar adesão.
“O discurso reconhece os limites materiais do Brasil para influenciar disputas estratégicas de alta intensidade e opta por um terreno em que o país possui autoridade histórica e institucional”, ressalta.
Nesse sentido, o efeito central seria tensionar narrativas baseadas exclusivamente no uso da força e ampliar a legitimidade de agendas sociais no debate regional.
Ao priorizar temas como fome e desigualdade, o Brasil também evita se alinhar automaticamente a conflitos externos de grande escala.
“Esse enquadramento não redefine o sistema internacional nem elimina pressões externas, mas permite ao país sustentar uma postura de interlocução ampla, preservando margens diplomáticas importantes”, frisa.
Para o analista, a declaração pode ser lida como uma crítica indireta à lógica que orienta parte das intervenções internacionais contemporâneas, sem a personalização de atores ou países.
“A crítica incide sobre o diagnóstico estrutural, não sobre decisões pontuais. Isso reduz o risco de confrontos diretos e mantém canais de diálogo abertos”, pontua.
Diplomacia de estabilidade
Na avaliação do internacionalista João Alfredo Nyegray, a fala de Lula carrega múltiplos pesos diplomáticos. Segundo ele, ao defender integração regional e rejeitar a lógica da guerra em um fórum político-econômico, o presidente brasileiro sinaliza qual ordem internacional o país pretende reforçar.
“Ao afirmar que a ‘única guerra’ deve ser contra a fome e a desigualdade, Lula tenta reposicionar a América Latina como uma zona de previsibilidade em um mundo marcado por coerção, protecionismo e rivalidade estratégica”, afirma.
Para Nyegray, trata-se de um movimento típico de uma potência média. “O Brasil não compete por projeção militar, mas por capacidade de coordenação, redução de riscos e construção de consensos mínimos que garantam o funcionamento do comércio, dos investimentos e das cadeias logísticas”, destaca.
O fato de o discurso ter sido feito diante de lideranças de direita, segundo o internacionalista, tende mais a ampliar o alcance diplomático do que a elevar riscos, desde que haja coerência entre discurso e prática.
“Isso sinaliza disposição para uma relação de Estado, e não apenas ideológica, facilitando cooperação em temas sensíveis como segurança pública, infraestrutura, energia e combate ao crime organizado”, observa.
Ainda assim, ele reconhece a existência de riscos. Internamente, o gesto pode ser interpretado como concessão simbólica por determinados atores políticos. Externamente, adversários podem explorar ambiguidades para classificar o Brasil como excessivamente normativo em um mundo mais pragmático.
“Mas falar a públicos ideologicamente diversos é justamente o que caracteriza uma diplomacia com pretensão de influência regional”, argumenta.



