Do campo ao museu: como cientistas encontram os dinossauros?
Especialistas explicam como fósseis de dinossauros são localizados e transformados em conhecimento científico

Os dinossauros estão entre as criaturas mais famosas da história da Terra e seguem despertando fascínio em pessoas de todas as idades. Presentes em filmes e museus, eles parecem sempre cercados de mistério. Mas, fora da ficção, como começa o trabalho de encontrar esses animais que viveram há milhões de anos?
O ponto de partida está no tipo certo de rocha. O paleontólogo Rodrigo Miloni Santucci, da Universidade de Brasília (UnB), de Planaltina, explica que fósseis costumam ser encontrados em rochas sedimentares, formadas a partir do acúmulo de areia ou lama ao longo do tempo.
“Essas rochas se formam, por exemplo, em rios, lagos, praias e até em ambientes desérticos, onde o vento acumula sedimentos. É nesse processo que restos de seres vivos podem acabar soterrados e preservados”, explica.
No caso dos dinossauros, os pesquisadores procuram rochas sedimentares de origem continental e com idades específicas, entre cerca de 230 milhões e 66 milhões de anos, período em que esses animais viveram. Rochas mais antigas não servem porque os dinossauros ainda não existiam, e as mais recentes já pertencem a um tempo posterior à extinção.
Para chegar a esses locais, mapas geológicos e imagens de satélite são aliados importantes. “No Brasil, temos bons levantamentos geológicos que indicam onde há rochas com potencial fossilífero”, afirma Santucci.
O professor Carlos D’Apólito, da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e pesquisador apoiado pelo Instituto Serrapilheira, acrescenta que a experiência prévia também orienta a escolha das áreas. “Muitas expedições ocorrem em regiões onde fósseis já foram encontrados antes, mas há também buscas exploratórias em áreas pouco estudadas”, diz.
Segundo ele, o acesso ao terreno faz diferença. Áreas com vegetação mais aberta, cortes de estrada, margens de rios e regiões montanhosas facilitam a prospecção. “Em locais com mata muito densa, o trabalho fica bem mais difícil”, esclarece.
Relatos de moradores locais também ajudam. “Não é raro ribeirinhos ou pessoas da zona rural encontrarem fósseis e avisarem universidades ou institutos de pesquisa”, afirma D’Apólito.
Mesmo com todo o planejamento, nem sempre a busca resulta em descobertas. “Às vezes, a rocha é perfeita, da idade certa, mas simplesmente não houve preservação naquele local”, diz Santucci.

Do achado à identificação científica
O diretor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Alexander Kellner, explica que a identificação ocorre em etapas e pode levar muito tempo.
“No campo, o pesquisador costuma fazer uma identificação preliminar, algo como suspeitar se é um osso de dinossauro, de crocodilo morfo ou de peixe”, diz Kellner.
Depois da coleta, o material vai para o laboratório, onde passa por um processo cuidadoso de preparação. A rocha que envolve o fóssil é removida, revelando detalhes que permitem uma identificação mais precisa.
Só nessa fase é possível confirmar a qual grupo aquele fóssil pertence. A etapa seguinte, segundo o especialista, é ainda mais detalhada e envolve comparar o material com outros já conhecidos para saber se aquela se trata de uma espécie nova ou não.
“Encontrar material de uma espécie já conhecida também é extremamente importante, porque ajuda a entender melhor sua anatomia, variações e modo de vida”, ressalta o diretor do Museu Nacional da UFRJ.
O tempo entre a descoberta e a publicação científica varia bastante. De acordo com o professor, alguns fósseis são descritos em um ou dois anos. Outros ficam décadas guardados até alguém se dedicar a estudá-los com mais profundidade.

Achados curiosos que mudaram pesquisas
Nem sempre são ossos que trazem as informações mais surpreendentes. Rodrigo Santucci conta que uma de suas descobertas mais curiosas envolveu fezes fossilizadas, conhecidas como coprólitos.
“Encontramos coprólitos de dinossauros herbívoros em Minas Gerais. Eles são valiosos porque revelam aspectos do comportamento que os ossos não mostram”, explica.
A análise revelou restos de folhas e grãos de pólen preservados nas fezes, o que ajudou a reconstruir a dieta desses animais. “Foi possível entender melhor o que eles comiam e o ambiente em que viviam”, diz.
Alexander Kellner lembra de uma descoberta feita ainda no mestrado. Um pequeno nódulo calcário, inicialmente confundido com um osso comum, acabou revelando algo maior. “Ao observar o material, percebi que a forma indicava um crânio. Após a preparação, ficou claro que se tratava de um novo grupo de répteis alados”, relata.



