Curiosidades

Por que pratos famosos se chamam assim? Histórias e curiosidades

Alguns nomes nasceram de homenagens, outros de pura improvisação, mas todos viraram clássicos. Conheça as histórias divertidas por trás de pratos e bebidas que conquistaram o mundo

Você já parou para pensar por que o strogonoff se chama strogonoff? Ou por que a caipirinha, presença garantida em dias quentes, praias e mesas de bar, carrega esse nome tão brasileiro?

A comida é uma linguagem universal, mas os nomes dos pratos contam histórias muito particulares. Longe de serem simples descrições de ingredientes, eles funcionam como cápsulas do tempo, que guardam homenagens a personagens históricos, lendas curiosas, acidentes culinários e até episódios decisivos da história.

É por meio desses nomes que a aristocracia russa, a resistência de freiras francesas, os hábitos do interior brasileiro e os improvisos da comida de rua atravessaram séculos e fronteiras até chegar ao nosso prato. Mergulhar na etimologia gastronômica é descobrir que, muitas vezes, a história por trás do nome é tão rica quanto o próprio sabor.

Strogonoff: o legado do Conde Russo

No Brasil, Strogonoff (ou estrogonofe) leva arroz e batata palha como acompanhamentos indispensáveis • Foto Gustavo Pitta para restaurante Rendez Vous

Strogonoff (ou Estrogonofe) é um prato que evoca a Rússia imperial, e seu nome é uma homenagem direta à influente família Stroganov.

A versão mais aceita é que o prato foi criado no século XIX por um chef francês que trabalhava para o Conde Pavel Alexandrovich Stroganov. Outra lenda popular sugere que o prato foi inventado para o Conde Grigory Stroganov, que, devido a problemas dentários na velhice, precisava de carne cortada em tiras finas e macias, servida em um molho cremoso para facilitar a mastigação.

Outra teoria afirma que a receita ganhou fama após vencer um concurso de culinária em São Petersburgo, o que teria ajudado a difundir seu nome: Beef à la Stroganoff.

Vale ressaltar que ele ganha diferentes grafias mundo afora (e claro, receitas também). Originalmente, o prato era uma iguaria da aristocracia, mas se popularizou globalmente, adaptando-se em cada cultura. No Brasil, ganhou o toque do creme de leite, do arroz branco e da indispensável batata palha, distanciando-se da receita russa original que usa smetana (creme azedo).

Filé Oswaldo Aranha: o prato do diplomata

Filé Oswaldo Aranha conquistou bares Brasil afora, como o Braca Bar, em São Paulo • Ricardo D'Angelo

Filé Oswaldo Aranha é um clássico da culinária carioca, mas leva o nome de um gaúcho: o diplomata e político Oswaldo Aranha. A história parte das décadas de 1930 e 1940, quando Aranha era frequentador assíduo do Restaurante Cosmopolita, na Lapa, no Rio de Janeiro. O prato não foi inventado especialmente para ele, mas montado a partir de suas preferências pessoais.

Aranha costumava pedir um filé alto, temperado com muito alho frito, acompanhado de farofa, arroz e batatas portuguesas. O sucesso do pedido entre outros clientes fez com que o restaurante incluísse a receita no cardápio. A partir daí a fama se espalhou Brasil afora: é só sentar em um boteco que certamente encontrará no menu a opção!

Cachorro-quente: origem alemã com um toque americano

Origem do nome "Hot Dog" é uma das mais curiosas da gastronomia e tem relação direta com o cachorro da raça Dachshund, conhecido popularmente no Brasil como salsichinha • Unsplash

A origem do nome cachorro-quente (hot dog) é uma das mais divertidas da gastronomia. A salsicha do tipo frankfurter foi levada aos Estados Unidos por imigrantes alemães no século XIX e rapidamente se popularizou como comida de rua.

Segundo uma das versões mais aceitas por historiadores, açougueiros alemães passaram a chamar informalmente a salsicha longa e fina de dachshund sausage, em referência à raça de cachorro de corpo alongado, numa alusão direta ao formato do alimento. O apelido acabou sendo adotado por vendedores ambulantes e consumidores.

Com o tempo, a expressão foi encurtada para hot dog, especialmente quando a salsicha começou a ser servida quente, dentro de um pão. O nome se espalhou pela linguagem popular, ajudado também pelo clima de humor e desconfiança que cercava as carnes vendidas nas ruas naquele período.

Feijão-Tropeiro: a comida de estrada

O feijão-tropeiro tem origem no Brasil colonial e está diretamente ligado aos tropeiros, viajantes que cruzavam longas distâncias transportando mercadorias pelo interior do país entre os séculos XVII e XIX.

Esses homens percorriam caminhos que ligavam regiões produtoras de gado, ouro e alimentos, especialmente no Sudeste e no Sul, com destaque para o atual estado de Minas Gerais. Durante as viagens, precisavam de refeições práticas, nutritivas e que não estragassem facilmente.

O prato nasceu dessa necessidade. O feijão cozido era misturado à farinha de mandioca, ingrediente seco e resistente, além de pedaços de carne-seca ou toucinho, que ajudavam na conservação e forneciam energia. Com o tempo, outros ingredientes foram incorporados, como ovos, cebola e temperos, dando origem às variações conhecidas hoje.

Mais do que uma receita fixa, o feijão-tropeiro era uma comida funcional, adaptada às condições da estrada. Ao se espalhar pelas regiões por onde os tropeiros passavam, o prato ganhou identidade local e se consolidou como um símbolo da culinária mineira.

Panetone: do erro do jovem cozinheiro Toni ao clássico natalino

São muitas lendas sobre a história do panetone. A mais famosa delas remonta ao século XV, na corte de Ludovico il Moro, Senhor de Milão. Conta-se que, na véspera de Natal, durante um banquete, o cozinheiro da nobre família Sforza acidentalmente queimou uma sobremesa. Para salvar a situação, um dos ajudantes da cozinha, chamado Toni, pegou um pão de fermentação que havia reservado para as festividades e, com criatividade, adicionou passas, frutas cristalizadas e açúcar, criando uma massa leve e macia.

A receita foi um sucesso e agradou tanto à família Sforza que decidiram batizar o bolo de “pan di Toni”, nome que com o tempo se transformou em “panetone”.

Caipirinha: de sotaque interiorano para o mundo

O nome revela a origem simples e interiorana do drinque que conquistou o mundo • Pexels

O nome caipirinha não se refere à receita, mas à origem social da bebida. A palavra vem de “caipira”, termo usado desde o século XIX para designar o morador do interior, especialmente das áreas rurais do Sudeste brasileiro, com forte associação ao interior paulista. O diminutivo “-inha” acrescenta um tom informal e afetivo, comum na linguagem popular.

A bebida surgiu nesse ambiente rural, onde cachaça, limão e açúcar eram ingredientes baratos e facilmente encontrados. A mistura fazia parte do cotidiano do campo, tanto como refresco quanto em preparos caseiros usados para aliviar gripes e resfriados. Por isso, passou a ser reconhecida como uma bebida “do caipira”.

Quando a receita chegou às cidades e se popularizou nos bares urbanos, o nome foi mantido. Ele ajudava a diferenciar a bebida e reforçava sua identidade brasileira, ligada à simplicidade, à informalidade e à cultura do interior. Assim, caipirinha virou mais do que um nome: tornou-se um marcador de origem e pertencimento.

Brigadeiro: de uma patente militar a um dos doces mais populares do Brasil

Antes de virar um dos doces mais populares do país, o brigadeiro era apenas o nome de uma patente militar. O termo designa um posto elevado nas Forças Armadas e ganhou projeção nacional nos anos 1940 por causa de Eduardo Gomes, oficial da Força Aérea Brasileira que disputou a Presidência da República em 1945.

Durante a campanha, apoiadores do candidato passaram a vender um doce simples, feito com leite condensado, chocolate e manteiga, para arrecadar recursos e divulgar seu nome. A associação foi direta: o doce ficou conhecido como “o doce do brigadeiro”, numa referência clara à patente militar de Eduardo Gomes. Mesmo após a derrota eleitoral, o nome se manteve. A receita se espalhou pelo país e o termo foi encurtado para brigadeiro, perdendo o vínculo político direto, mas preservando no nome a memória de sua origem.

Pé-de-Moleque e suas diversas lendas

A origem do nome pé-de-moleque é cercada de histórias populares, mas nenhuma delas pode ser comprovada com absoluta certeza.

A explicação mais lógica relaciona o nome à aparência rústica do doce. Feito de açúcar derretido com amendoim, ele endurece de forma irregular, lembrando o piso de ruas antigas, feitas de pedras ou terra batida. Esse tipo de calçamento era chamado popularmente de “pé-de-moleque”, numa alusão ao chão áspero que machucava os pés de crianças que andavam descalças.

Outra lenda associa o nome ao ambiente de rua e às feiras populares, onde o doce era vendido. Segundo essa versão, crianças costumavam se aglomerar ao redor dos vendedores pedindo um pedaço do doce. Ao ouvir repetidamente o pedido “pede, moleque!”, a expressão teria sido incorporada ao nome da guloseima.

Há também uma versão que associa o nome ao modo de consumo. Como o doce era duro e vendido em grandes placas, muitas vezes precisava ser quebrado no chão. Crianças chutavam ou pisavam no doce para parti-lo, reforçando a ligação entre pé, moleque e comida de rua. E aí, qual faz mais sentido para você?

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